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A saudade imorredoura do insubstituível Victor Assis Brasil

Em 14 de abril de 2001, José Domingos Raffaelli escreveu esse artigo pungente e saudoso sobre seu amigo Victor Assis Brasil, ao serem completados vinte anos da sua morte.

Victor Assis Brasil, gênio da raça jazz brasil.

31/07/2007 - José Domingos Raffaelli

Há 20 anos, precisamente em 14 de abril de 1981, faleceu o saxofonista Victor Assis Brasil, cuja carreira foi um capítulo especial e memorável na história da música instrumental em nosso país. Batalhador incansável, lutou obstinadamente pela música na qual acreditava, tornando-se sinônimo de jazz em nossa terra, sem compromissos com esquemas ou modismos. Seu único compromisso foi a honestidade diante ao público fiel que prestigiou sua passagem pela nossa cena musical calcada na indômita coragem de viver profissionalmente tocando jazz.

Com seu prematuro desaparecimento, após semanas de intensa batalha contra o inevitável, encerrou-se a mais importante carreira da área jazzística nacional. Ele não parou nunca, aprimorando-se a cada dia, dedicando-se de corpo e alma à composição e aos seus instrumentos, voltado exclusivamente para expandir seus horizontes. Nunca dava-se por satisfeito, sempre buscando e vislumbrando novas possibilidades. Foi um pesquisador insaciável e um perfeccionista insatisfeito. Tinha consciência do seu valor, porém nunca foi convencido, considerando que ainda tinha muito a aprender, evidência aparente em todo grande músico.

Modesto, simpático, prestativo, sempre disposto a prestigiar e incentivar os novos valores, apoiou muitos jovens músicos que se tornaram conhecidos, inclusive internacionalmente. Quantos dele receberam a primeira e real oportunidade ou um grande impulso para se projetarem ? Entre muitos outros, Helio Delmiro, Claudio Roditi, Ion Muniz, Fernando Martins, Claudio Caribé, Marcio Montarroyos, Paulo Lajão, Aloísio Aguiar, Lula Nascimento e Alberto Farah.

A vocação jazzística de Victor nasceu quando era menino, imitando com uma gaitinha de boca os solos que ouvia em discos, logo passando para o sax-alto, desenvolvendo rapidamente suas aptidões. Enquanto seu talento era atraído para o jazz, seu irmão gêmeo, o pianista João Carlos, orientou sua carreira para a música clássica. Victor dava atenção a todas as formas musicais, tendo em sua bagagem a autoria de algumas composições clássicas, de suítes para quarteto de cordas à obra ambiciosa intitulada "Suíte Para Sax-soprano e Cordas", em cuja première, na Sala Cecília Meireles, em 1976, ele apresentou-se com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Versátil e sumamente inventivo, ele também compôs a trilha da novela "O Grito". Mesmo seguindo carreiras em direções opostas, Victor e João Carlos sempre foram muito unidos. Querido por todos, Victor nunca impôs suas idéias, expondo-as com naturalidade.

A biografia de Victor é conhecida. Ele começou tocando nas domingueiras do extinto Clube de Jazz & Bossa, em 1965, onde foi ouvido pelo pianista austríaco Friedrich Gulda, que o convidou a participar do concurso que ele promoveria no ano seguinte, em Viena. Aos 21 anos, Victor partir para Viena, um desafio que a confiança em seus recursos superou a inexperiência internacional, alcançando um honroso 3º lugar na catgeoria de saxofonistas. O vencedor foi o agora famoso Eddie Daniels, atualmente dedicado exclusivamente ao clarinete, e no corpo de jurados estavam J. J. Johnson, Cannonball Adderley, Joe Zawinul e o próprio Gulda. Logo a seguir, Victor foi premiado como o melhor solista do Festival de Jazz de Berlim.

As qualidades de Victor foram foram exaltadas pelo crítico Leonard Feather, ao ouví-lo no I Festival de Jazz de São Paulo, em 1978. Um ano antes, o baterista Art Blakey convidou-o a tocar no seu famoso conjunto Jazz Messengers, mas foi declinado a recusar por razões alheias à sua vontade. Em 1979, tocou no Festival de Jazz de Monterey, ao lado de Duzzy Gillespie, Red Mitchell, Albert Mangelsdorff e outros. Wm 1980, participou do Rio Jazz Monterey Festival, ao lado de Clark Terry, Slide Hampton, Richie Cole e Jeff Gardner.

Victor tocou pelo Brasil afora. Sua filosofia era procurar tocar sempre melhor. "É difícil fazer música séria no Brasil", dizia ele. "O jazz no Brasil é pouco conhecido porque sua divulgação é precária. Se os jovens tivessem tivessem acesso ao jazz, como têm a outros gêneros, pode estar certo de que gostarão".

A discografia de Victor é extensa, se conderarmos a raridade dos discos de jazz gravados no Brasil. Sua estréia em estúdios, aos 20 anos, ocorreu em "Desenhos" (Forma). Seguiu-se o excelente "Trajeto" (Equipe), com formações de trio a big band. Seu projeto seguinte foi o álbum "Victor Assis Brasil Toca Antonio Carlos Jobim" (Quartin, de 1970, reeditado pela Continental em 1975), seguido por "Esperanto" (Tapecar, da mesma sessão do anterior, onde pela primeira vez gravou tocando sax-soprano). Depois, em 1974, foi a vez de "Victor Assis Brasil Ao Vivo no Teatro da Galeria" (CID).

Na fase final de sua carreira, em 1979, levado por este colunista à EMI-Odeon, gravou seus dois últimos discos, as obras-primas "Victor Assis Brasil Quinteto" (lançado nos Estados Unidos pela Inner City, na Europa pela Telefunken alemã e no Japão pelo selo Skyline). Ainda houve um lançamento póstumo, pela Imagem, o CD "Luiz Eça & Victor Assis Brasil no Museu de Arte Moderna".

Compositor prolífico, escreveu cerca de 200 peças, a maioria inéditas. Das suas obras, apreciava particularmente "Balada Pra Nadia", que escreveu sob forte impacto emocional. Seu maior objetivo era tocar seriamente. "Você deve respeitar a música que toca. Seja sincero, não importa o que toque. O essencial é que venha do coração. Sem o verdadeiro feeling, a música se deteriora". Victor jamais tocou música na qual não tinha fé. Isso explica porque evitou os contextos comerciais. Seus princípios básicos permaneceram até o fim, um fim que - lamentavelmente - chegou cedo demais. Muito moço para deixar-nos, mas foi inevitável e o imponderável prevaleceu. O destino assim o quis.

Victor foi um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Tinha ainda muito a realizar, muito a oferecer, muitos projetos idealizados. Resta-nos o consolo da sua obra gravada. Uma obra inspirada, criativa e, acima de tudo, musicalmente honesta. Victor Assis Brasil deixou um grande vazio que não foi e dificilmente será preenchido, além de uma imensa saudade que não foi e não será amenizada no coração de todos os que tiveram a felicidade de conhecê-lo. ( artigo publicado em 17/04/2001 na Batida do Jazz).

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