clube de jazz  
 
agenda notícias store
 
o jazz jazz brasil ao vivo galeria
 
 
colunas
perfil
eventos
lançamentos
entrevistas
acorde final
 

Primeiras Sugestões para 2013

Nada melhor nesse começo de ano do que curtir duas das grandes cantoras de nossa mpb de qualidade: Nana Caymmi e Mônica Salmaso. Do jazz da matriz, o mais novo cd do gênio Brad Mehldau e o instigante lançamento do baterista do Bad Plus, Dave King.

08/01/2013 - Wilson Garzon

Nana Caymmi - A Dama da Canção (Renato Vieira, O Tempo, 21/12/2012)

Poucas cantoras no Brasil têm a coerência de Nana Caymmi. Contemporâneas suas, como Elis Regina e Clara Nunes, flertaram com diversos estilos até chegarem ao panteão da MPB. A filha de Dorival, não. Com seu timbre particular e inconfundível, ela vê, aos 71 anos, o relançamento de boa parte da sua obra em uma caixa. Produzida pelo pesquisador Rodrigo Faour, "A Dama Da Canção" (EMI, R$ 440) traz 18 álbuns lançados entre 1965 e 2000, além de um CD duplo com raridades.

Às voltas com um novo projeto, em que revisitará, mais uma vez, o cancioneiro do pai por ocasião de seu centenário, ela conta que a caixa é o mais fiel retrato de seu trabalho. "Eu não sou burra pra enfrentar uma família como a minha, com pais e irmãos compondo. Sou Caymmi, tenho uma reputação a manter, um compromisso familiar. Essa caixa mostra o quanto contribuí para a MPB". Nana diz não ter tido tempo de ouvir os CDs, mas quer pescar pérolas perdidas deles para shows e discos - não, ela ainda não pensa em parar, só em cantar quando quiser e em ocasiões especiais.

Faour começou a produzir a caixa em abril do ano passado, mas entraves burocráticos, como licenciamentos - há discos de cinco gravadoras diferentes - foram adiando o projeto. Só para a gravadora argentina Trova liberar o álbum que Nana fez na terra dos hermanos demorou um ano. "Liguei pra lá e fiz escândalo. ‘Porra, to fazendo 70 anos, vão guardar essa merda pra quê? Tive que dar esporro, conheço muito bem essa raça que trabalha em gravadora", fuzila Nana. Postura de uma cantora que sempre gravou o que quis, sem nenhuma imposição de produtores. "Ela era vista como maldita pelas gravadoras e também pelo público. Mas isso só ajudou a consolidar as particularidades de intérprete dela", comenta Faour, dando como exemplo o timbre inconfundível, mas também a presença constante de Dori Caymmi nos arranjos e a gravação de autores menos badalados, como Rosa Passos e Márcio Proença.


DVD Alma Lírica Brasileira - Mônica Salmaso, Nelson Ayres e Teco Cardoso (Eduardo Tristão Girão, Estado de Minas, 07/01/2013)

Curiosamente, da mesma forma inesperada como surgiu o CD "Alma lírica brasileira", o recém-lançado DVD homônimo da cantora paulistana Mônica Salmaso com Teco Cardoso (flauta e saxofone) e Nelson Ayres (piano) foi obra do acaso. O ciclo de shows do trio pelo país já havia sido encerrado quando a gravadora Biscoito Fino firmou parceria com o Canal Brasil, o que originou convite para montar novamente o espetáculo e registrar em vídeo o belíssimo entrosamento dos três.

Gravado em janeiro do ano passado, no Teatro Alfa, em São Paulo, o DVD exibe o trio em performance sem público, apenas diante das câmeras e cercado por algumas peças de artesãos brasileiros. “Com plateia, vejo que os diretores de DVD ficam muito amarrados em relação ao posicionamento das câmeras, luz e tudo mais. Não poderia deixar de aproveitar ao máximo as possibilidades desse show e do diretor. Gosto tanto de estúdio quanto de cantar ao vivo, e não me senti tensa nem fria”, conta ela.

A direção, no caso, foi de Walter Carvalho, que a cantora convidou para a tarefa por meio da esposa dele, Lia Gandelman. Já a escolha do local para acolher o espetáculo, conta Mônica, deve-se ao piano: “Precisávamos de um superpiano, já que somos só nós três no palco. O do Teatro Alfa é um, de cauda inteira, escolhido pelo Nelson Freire”. Foram dois intensos dias de gravação, com os artistas e a equipe inteira trabalhando das 8h às 20h.

O repertório, formado por 18 músicas, é um verdadeiro passeio pela música brasileira. De Villa-Lobos ("Melodia sentimental") a Adoniran Barbosa ("Véspera de Natal" e "Trem das onze"), os três interpretam também "Cuitelinho" (Antônio Xandó e Paulo Vanzolini), "Mortal loucura" (José Miguel Wisnik sobre poema de Gregório de Matos), "Meu rádio e meu mulato" (Herivelto Martins) e "Ciranda da bailarina" (Edu Lobo e Chico Buarque), entre outras canções.


Brad Mehldau Trio - Where Do You Start (Gustavo Cunha, blog www.33rotacoes.com)

Esse cd apresenta o pianista Brad Melhdau em plena maturidade, soando moderno e acompanhado por seu habitual trio formado por Larry Grenadier no contrabaixo e Jeff Ballard na bateria. Sem se preocupar com rótulos, recriou os 11 temas do álbum com interpretações do universo do Pop (Elvis Costelo), Rock (Hendrix e Alice in Chains), Jazz (Clifford Brown e Sonny Rollins) e da Música Brasileira (Ivan Lins e Toninho Horta). Mehldau entortou tão magnificamente os temas que, sob um olhar e audição ampliados, com a mente aberta, encontramos algumas fronteiras que se assemelham a melodias que fizeram história do universo musical em alguma época do tempo. Lógico que é uma impressão muito particular, mas que revelou-se a cada tema do álbum.

No tema de abertura, uma atmosfera a la Esbjorn Svensson em "Got me Wrong", tema que tem origem no rock (Alice in Chains). A balada "Baby Plays Around" (Elvis Costello) nos brinda em com uma roupagem que transcende com algo de "Whiter Shade of Pale" (Procol Harum) e, ainda neste universo, a clássica "Hey Joe" (Hendrix) inspirada com uma introdução solo de Grenadier para Mehldau explorar a melodia do tema, sempre mantendo a originalidade da melodia ao fundo. "Airegin" (Rollins) e "Brownie Speaks" (Brown) colocam Mehldau no caminho do Jazz tradicional, empolgante, e mais uma vez o contrabaixo de Grenadier em destaque, no improviso e no walking, sustentando um Mehldau bem à vontade improvisando como a gente gosta e com direito a uma pequena citação de "Milestones" (Miles).

E novamente um ar viking em "Holland" (Sufjan Stevens), com a introdução de Grenadier desenhando a melodia sob os acordes de Mehldau e as vassouras de Ballard. E mais baladas, "Time Has Told Me" (Nick Drake) carrega um ar pop que lembra na melodia "Bridge Over Trouble Water" (Garfunkel) e mostra, definitivamente, que Mehldau está sublime e inspirador nos temas introspectivos. E a música brasileira se faz presente em "Samba e Amor", gravada por Chico Buarque em 1970, com um arranjo característico de Mehldau em que mostra um verdadeiro diálogo entre mão esquerda e direita, simplesmente espetacular, um dos pontos altos do disco ao lado de "Aquelas Coisas Todas", de Toninho Horta, em uma contagiante versão embalada pela rítmica percussiva de Jeff Ballard. No tema título, que fecha o album, "Where Do You Start" (Johnny Mandel), um Mehldau entregue totalmente em uma atmosfera cool.


Dave King - I've been ringing you (Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil, 17/11/2012)

O formidável baterista Dave King, 42 anos, ficou famoso no início da década passada como o dínamo propulsor do hiperativo trio The Bad Plus, em associação até hoje estável e muito bem sucedida com o pianista Ethan Iverson e o baixista Reid Anderson. De These are the vistas (Columbia, 2003) ao recentíssimo Made possible (eOne, 2012) foram ao todo oito CDs muito ouvidos e comentados, que dividiram os críticos de jazz em dois grupos inconciliáveis. Assim é que Dave King – o principal pomo dessa discórdia – resolveu exibir a sua “face oculta”, e demonstrar que é capaz de reunir e liderar, na condição de requintado percussionista, um trio de jazz para ninguém botar defeito. Guardadas as devidas proporções, ele quis provar estar apto a seguir as pegadas dos emblemáticos Paul Motian e Jack DeJohnette. E também que não é avesso ao uso do American songbook como matéria-prima para a criação jazzística. Para isso, King convocou o eminente pianista Bill Carrothers e o baixista Billy Peterson - contemporâneos um pouco mais velhos e conterrâneos de Minneapolis - para gravar um pequeno disco muito especial, editado sob o título da última faixa: "I've been ringing you" (Sunnyside). A sessão teve lugar numa “pequena igreja em Minnesota”, em 13 de março último. A duração das oito faixas do CD é inferior a 40 minutos.

O trio é bem diferente do Bad Plus. E também não procura aderir àquele fluir interativo do magnífico e paradigmático trio Bill Evans-Scott La Faro-Paul Motian. Com todo o respeito que tem por Carrothers e Peterson, o percussionista King assume mesmo a condição de líder, não só na escolha do repertório de standards, como ainda num processo de sístole e diástole em que o delicado som das escovinhas nos címbalos e o estalar das baquetas nos snare drums se entremeiam surpreendentemente. Mesmo nas faixas mais “suaves” ou românticas – como "Goodbye" (5m05) e "Autumn serenade" (4m45) – o ativismo de King é marcante, com splashes feéricos aqui a acolá.

O pianismo de Carrothers é, como sempre, de uma “fluidez mais aérea do que líquida”, como escreveu Alex Dulith nas notas para o CD que ele gravou para a Pirouet, em 1999, em duo com o igualmente primoroso baterista Bill Stewart. Carrothers é um mestre do abstracionismo melódico, capaz de raras invenções melódico-harmônicas, como atesta, particularmente, a recriação tangencial que promove com King e Peterson de "Lonely woman" (5m15) - a mais bela das composições de Ornette Coleman. Ele é, sem dúvida, um cultor do jazz como “o som da surpresa”. O trio comandado pelo baterista noisy do Bad Plus conclui o álbum lançado pelo selo Sunnyside com a faixa-título (3m35) – a única que não se refere a nenhum standard, mas é um momento contemplativo dos três músicos reunidos na igrejinha de Minnesota.

Topo da página | Envie a um amigo | Voltar para Lançamentos

 
copyright clube de jazz 2004  
cadastre-se   termos de uso   contato   sobre nós