clube de jazz  
 
agenda notícias store
 
o jazz jazz brasil ao vivo galeria
 
 
colunas
perfil
eventos
lançamentos
entrevistas
acorde final
 

A Presença de Chico Amaral

Conhecido tanto como letrista do Skank e de Milton Nascimento, quanto como um atuante saxofonista de jazz nas noites de beagá, Chico Amaral se prepara para revelar a faceta de músico e cantor.

15/01/2007 - Ailton Magioli , Estado de Minas, 14/01/2007

Em boa hora, Chico Amaral volta ao universo sertanejo de Guimarães Rosa. Preparando-se para comemorar 50 anos em maio, o principal letrista do Skank retoma a leitura de Grande sertão: veredas, argumentando que esse romance tem de ser lido vida afora, pelo menos a cada nova década. “O Grande sertão dos 50 será um livro diferente daquele lido aos 20”, justifica. Velhice, nem tampouco a morte o assustam. “Estou cada vez mais velho”, garante Chiquinho, cuja fé filosófica o faz acreditar no eterno retorno.

Depois de viver intensamente a juventude, diz estar experimentando uma tardia fase à la Robert Crumb, o quadrinista criador do sábio mestre Mr. Natural, que não poupa críticas à classe média, urbanização e juventude norte-americanas. “A juventude é bacana, mas não está com essa bola toda que nossa cultura insiste em lhe dar”, garante o pai de Tomás, de 24 anos, e Virgínia, de 20. Ele confessa: está a fim de se tornar avô.

Além de gravar novo disco solo – paralelamente ao cultuado saxofone, vai se mostrar pela primeira vez como cantor –, Chico Amaral anuncia, surpreendentemente, que está à procura de parceiros letristas, devido a seu interesse crescente por melodias e harmonia. “Quando rapazinho, a gente anda com o violão debaixo do braço. Profissional, começa a andar com projetos de lei”, lamenta. “O artista jamais deveria perder o lado amador. A profissionalização é uma imposição circunstancial da sociedade. Ela não é verdadeira”, diz, queixando-se de que tal condição acaba tirando a espontaneidade da criação.

Inspirado nas harmonias e melodias que revelaram toda uma geração de músicos mineiros, Chico Amaral vai lançar este ano a coleção de composições que gravou sob produção de Robertinho Brant – a maioria composta a partir de 1998, quando deixou de tocar e viajar com o Skank. Das 15 faixas do CD, 11 são instrumentais e quatro cantadas, uma delas por Samuel Rosa e outra por ele e Leo Minax, o mais recente parceiro. Nas duas restantes, Chico pôs a própria voz. “Sou um cantor low profile”, diz, sem se preocupar com a opinião alheia. “Sou bossa-novista, não um cantor de música pop italiana”, acrescenta o intérprete de timbre à la João Gilberto, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e tantos outros que acabaram criando estilo próprio na MPB.

Dono de estilo cada vez mais aprimorado como letrista – compõe com Lô e Milton Nascimento –, ele desenvolveu prática diferente da que mantém com Samuel Rosa (o companheiro mais constante, com quem já fez mais de 70 músicas) e Affonsinho, o primeiro parceiro. “O Bituca ligou o gravador com aquelas melodias estranhas, cheias de armadilhas, e vieram as letras de Pietá e Boa-noite”, conta. Já tinha feito o mesmo com Lô na casa da família Borges, em Santa Teresa.

Cronista do Estado de Minas por dois anos, depois de certo desconforto em escrever para jornal diário, que o levou a abandonar a coluna, Chico Amaral diz gostar do que escreveu, a cada nova leitura do material publicado. Mas o formato preferido não é o dia-a-dia, apesar de algumas de suas letras serem verdadeiras crônicas. A poesia – esta sim – o atrai, pois “traz no bojo a possibilidade de crítica, além de expandir a realidade, driblar o censo comum”.

Recém-chegado do Rio de Janeiro, onde assistiu ao show Carioca, de Chico Buarque, ele se derrama. “Chico é o rei da canção. Já Caetano tem variadas facetas e jogadas estéticas, exatamente porque não é o rei da canção”, compara. “Caetano é o filósofo da canção, um conceituador. Enquanto isso, Milton Nascimento é o inventor. Bituca trouxe parâmetros novos para a canção. Depois dele, a expansão da canção teria de ter um fim: ou caímos no atonalismo ou ficamos só no ritmo, na eletrônica”, prega.

O Clube da Esquina criou uma antologia maravilhosa de canções, observa. “Depois de assistir ao show do DVD Hotel Maravilhoso que eu, Flávio Henrique e Marina Machado gravamos recentemente, Samuel Rosa disse à mulher dele que nós somos a continuidade do clube. Não pretendo isso, mas adoro o Clube da Esquina mais do que tudo. Não quero militar em causa própria, mas estou em flerte total com o clube”, conclui.

Nos silêncios de Grande sertão: veredas, Chico Amaral gosta de buscar música: “Ele tem a cantiga do violeiro, aquela coisa que influenciou Matita perê, de Tom Jobim”. Com o ídolo Miles Davis, Chico aprendeu a lidar com o silêncio. “Ao caminhar pelas estradas do Sul dos Estados Unidos, Miles gostava de ouvir o pio das corujas, que tinha a ver com o trompete, com o silêncio misterioso”. Chiquinho leu duas vezes seguidas a biografia do ídolo. “Perto de Miles, Bituca era um tagarela”, compara, revelando que pensa no músico norte-americano diariamente. “Apesar de o instrumento de Miles ser o trompete, sou muito influenciado por ele na atitude e no pensamento. É um guia para mim”, confessa.

Feliz com o resultado do CD Livramento (2002), gravado em duo com o parceiro Flávio Henrique, conta que nele está uma das melhores letras que já fez: Hotel maravilhoso, em homenagem a Belo Horizonte. “A cidade que já foi minha musa não deixa de ser uma referência”, diz. Hoje, a capital mineira se tornou a antimusa de Chico. “Hotel maravilhoso foi feita até com sentimento positivo, mas o tema da canção é o sentimento negativo que ela passou a despertar em mim, diante da decadência provocada pela especulação imobiliária”, esclarece.

Dono de uma casa em Ouro Preto, que freqüenta desde a adolescência, o compositor gostaria de morar na cidade histórica, cuja harmonia o atrai. “Mas Ouro Preto também tem suas dificuldades, não pode crescer infinitamente”, critica, preocupado com a favelização da antiga Vila Rica. Chico Amaral sabe que o que mais marcou sua atuação artística foram as letras. “Mas as pessoas já começam a tomar conhecimento de que sou músico. Quero que elas saibam desse meu lado”, reivindica o saxofonista que se formou na noite, depois de abandonar a faculdade de psicologia. “A noite é prazer, necessidade e exercício”, filosofa. Detalhe: além do sax, ele também toca piano, flauta e violão.

Topo da página | Envie a um amigo | Voltar para Argentina

 
copyright clube de jazz 2004  
cadastre-se   termos de uso   contato   sobre nós