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Chico Amaral: No Tempo Certo

O saxofonista Chico Amaral lança seu primeiro disco-solo com temas instrumentais e canções. Como compositor, celebra o amadurecimento como artista e diz que não tem pressa para terminar suas músicas.

Foto: Beto Novaes

27/08/2007 - Eduardo Girão Tristão, Estado de Minas, 27/08/2007

Quem passa pela Rua Sabino Barroso, no Bairro Cruzeiro, em Belo Horizonte, pode ouvir um som de saxofone se esgueirando solitariamente pelas frestas de uma garagem. Quem tiver a curiosidade de olhar para dentro dessa caixa acústica improvisada, vai encontrar ninguém menos que o instrumentista Chico Amaral, exercitando o dom que o coloca entre os principais talentos da cidade. Para desenvolver a musicalidade que lhe é peculiar, precisou de horas e horas de garagem (hábito que, de fato, mantém até hoje) e agora, maduro artisticamente, apresenta seu primeiro disco solo, batizado Singular. Quem está acostumado a pensá-lo sempre como o quinto Skank vai conhecer a sensibilidade do músico para o jazz (estilo que ele burila pelas noites da cidade) e reencontrar a sua faceta de letrista.

“Esse disco tem uma carcaterística predominante, que é a composição. É mais para mostrar isso que para apresentar performances. Tem performances, mas de um jeito leve. Até chegar nesse disco, fui procurando meu caminho. Demorei a encontrar meu caminho autoral, a descobrir o que fazer com o sax, com as letras. Se esse disco veio na hora errada, deveria ter vindo depois. O que amadurece um trabalho é a seqüência que vem depois”, afirma Chico Amaral. Ele diz que Livramento, disco que gravou em 2002 com Flávio Henrique, foi o início dessa descoberta. Aos 50 anos, o músico diz que envelhecer é “ótimo”: “Maturidade. Simplicidade. Ficamos cada vez mais objetivos. Artisticamente, tenho mais segurança, mais confiança”.

O processo de gravação de Singular começou em agosto do ano passado. Depois de trabalhá-lo em estúdios de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, foi concluído em maio. “Houve interrupções, lapsos e devaneios, com todo direito à preguiça”, completa o músico. “A maior parte do disco foi gravada ao vivo. Essa forma de gravação tende a voltar, apesar da presença maciça dos computadores, com todos esses recursos técnicos. Para música instrumental, é o melhor contexto. É mais espontâneo, mais orgânico. Tem mais soltura. Fica todo mundo de mãos dadas, respirando junto. É uma conversa real, com suas imperfeições, inclusive”, conta. A produção ficou a cargo dele e de Robertinho Brant.

Chico Amaral se cercou de um timaço para registrar as 13 faixas: Ricardo Fiúza (teclados), Enéias Xavier (baixo), Adriano Campagnani (baixo), André “Limão” Queiroz (bateria), Cléber Alves (saxofone), Lincoln Cheib (bateria), Magno Alexandre (guitarra), Beto Lopes (guitarra e violão) e Wilson Lopes (guitarra e violão), entre outros. Vários deles participaram das gravações de Livramento, inclusive. “É uma geração que cresceu junta e ocupou junta a cena. Aprendemos juntos”, diz. O saxofonista assina as 13 composições que integram Singular.

Voz e canções

Entre os convidados especiais, estão Leo Minax, músico mineiro que mora na Espanha, e a dupla Samuel Rosa e Lelo Zanetti, do Skank. Com eles, Chico gravou três músicas, as únicas que têm letra. Com Leo Minax, divide a autoria de Tempo de samba e Boca. Essa última é um dos raros registros de Chico soltando a voz. “Cantar é difícil, mas me sinto à vontade. Não tenho vergonha”, confessa. Já em Tempo de samba, é o parceiro quem assume o microfone. Trata-se da primeira parceria dos dois, registrada anteriormente no disco Aulanalua, de Minax. “O disco tem predominantemente faixas instrumentais, mas eu quis contar um pouquinho da minha história, começa com canções. Esse disco tem poucas e boas canções”, define.

Samuel e Lelo, voz e baixo, respectivamente, participam de Bodas, que fecha o disco. Nela, Chico troca o saxofone pelo piano. Ele conta que se inspirou na clássica Something, do beatle George Harrison, para escrevê-la. “Pensei em fazer uma canção clássica de amor. Quis que tivesse a precisão de Something. Uma palavra fora do lugar mutila a música. Fiz essa música no violão e, na segunda parte, começou a pintar uma influência do Samuel, das baladas pop. Me ocorreu que ele iria gostar, como, de fato, gostou. O convite foi uma coisa natural. Precisava de um cantor de responsa. Não poderia ter sido eu de jeito nenhum”, revela.

Camadas de sopros

O músico enfatiza que sua preocupação em Singular foi priorizar composições e arranjos. Os solos estão presentes, é claro, mas a estética do disco conduz o ouvinte a não se deixar desviar pelas performances. Basta ouvir a ótima Sambage à trois para conferir: camadas e camadas de sopros (saxofone alto, saxofone tenor, saxofone barítono, flauta, trompete e trombone) se encaixam sobre a levada de André “Limão” Queiroz. “Estou demorando mais para terminar minhas composições. Tenho demorado meses. Sobe o verão, por exemplo, comecei a fazer há sete anos e só terminei para esse disco. Não é um processo doloroso, é prazerosíssimo. Recentemente, Caetano Veloso disse que acabou as canções dele cedo demais. Minha dica para ele é encarar o processo como obra em progresso”, diz.

Chico diz que jamais pensou em lançar seu primeiro disco solo por uma grande gravadora. Para ele, as majors perderam capacidade de investimento, o que justificaria a migração de vários artistas para selos menores. “Assim, há maior liberdade artística. A divulgação não é aquela coisa blockbuster, mas condiz com o público do artista”, avalia. Atualmente, ele participa de projeto musicais da cidade, mas não está tocando em bares e casas noturnas, atividade que pretende retomar em breve. “Esse disco apareceu numa circunstância específica de Belo Horizonte, que é o crescimento da música instrumental. Diria até que está havendo um renascimento. Todo mundo está gravando e fazendo shows. E eu estou nesse movimento também. Belo Horizonte é um dos maiores centros de música instrumental do país”, comemora.

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