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Presença e Arte de Ithamara Koorax

É com enorme satisfação que o Clube de Jazz entrevista Ithamara Koorax, a maior cantora brasileira de jazz, que pela primeira vez vai pisar em solo mineiro para cantar e ser a grande estrela do Ipatinga Jazz Live 2007.

24/09/2007 - Wilson Garzon

Wilson Garzon - Como foi seu primeiro contato com o jazz?
Ithamara Koorax - Ainda criança, eu comecei a comprar meus primeiros LPs de jazz, aqueles discos de capa preto e banco da Pablo, que naquela época eram lançados no Brasil. Discos de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Joe Pass, Oscar Peterson. Nunca poderia imaginar que, um dia, eu estaria lançando meus CDs nos EUA pela mesma gravadora, a Milestone/Fantasy, que comprou o acervo da Pablo. Tanto que, em algumas compilações, minhas faixas são colocadas junto com gravações da Ella e da Sarah, o que me dá uma alegria enorme. Mas eu nunca tentei imita-las, porque seria ridículo, e as cantoras que acabaram mais me influenciando foram Carmen McRae, Shirley Horn, Urszula Dudziak, Flora Purim e Rachelle Ferrell, junto com Sinatra, Tony Bennett e Mark Murphy. Claro que eu ouvia também cantoras brasileiras como Elizeth Cardoso (que viria a ser minha madrinha artística), Elis Regina e Stellinha Egg, as minhas preferidas, cujas influências se somaram às inspirações jazzísticas. Os instrumentistas também tiveram uma grande influência. Meu fraseado assimilou muita coisa de trompetistas como Miles, Chet, Hubbard e Lew Soloff. Aprendi a pontuar ouvindo os solos de Ron Carter. Aprendi a dividir ouvindo bateristas como Steve Gadd e Billy Cobham e tocando ao lado de Dom Um Romão entre 1998 e 2005, tanto que melhorei muito depois de tocar com ele.

WG - Quando e como se deu o começo de sua carreira internacional?
IK - Começou poucos meses depois da carreira no Brasil, em 1990. Logo após eu ter gravado a música “Iluminada” para a mini-série “Riacho Doce”, da TV Globo, recebi um convite de Mauricio Carrilho e Pedro Amorim para excursionar com eles ao Japão. Fiz muitos contatos e voltei com um contrato assinado com a JVC, que lançou meu primeiro disco, gravado ao vivo e unplugged, antes dessas duas coisas virarem moda. Depois assinei um contrato de longo prazo com a King Records, gravadora da Sanyo Corporation, pela qual lancei cinco discos, alguns gravados em Tóquio. Eles me marketearam como uma cantora de jazz, o que foi ótimo. As turnês passaram a acontecer quase todos os anos, e desde 2000 a minha popularidade tem se solidificado também na Coréia, Taiwan, Hong Kong e China. Foi em 2000 também que eu assinei um contrato com a Milestone para começar a ter meus discos lançados nos Estados Unidos. Até então eu era completamente desconhecida por lá, as revistas me ignoravam e eu nunca havia sido sequer citada na DownBeat. Felizmente, hoje a situação é muito diferente e a minha carreira está estabilizada no mundo todo.

WG - Como foi ser eleita pela revista DownBeat em 2002 como a quarta melhor cantora de jazz no mundo, ficando à frente de figuras tarimbadas como Abbey Lincoln, Norah Jones, Shirley Horn e Jane Monheit?
IK - Obviamente foi uma grande honra. Antes eu já havia ficado em décimo lugar como cantora, e em terceiro lugar na categoria de “Beyond Artist” na votação de 2000, por conta do sucesso do “Serenade In Blue”. Na votação de 2002, fiquei atrás apenas de Diana Krall, Cassandra Wilson e Dianne Reeves. Mas não vou ficar me preocupando com isso. Eventualmente eu posso ser a oitava, como aconteceu em 2005, ou a sétima, como aconteceu em 2006. Ou nem aparecer na lista, porque esse tipo de resultado depende de muitos outros fatores sobre os quais eu não tenho controle: depende da promoção que a gravadora faz, da execução dos discos nas rádios, da repercussão junto à crítica, enfim, é uma conjunção de fatores. Agora em 2007, por exemplo, eu acho que tenho chances de obter uma boa colocação porque o “Brazilian Butterfly” tem recebido críticas maravilhosas, inclusive ganhou quatro estrelas na própria DownBeat, além de ter sido elogiadíssimo na JazzTimes, Cadence, Jazz Hot, Jazz ‘n’ More. Além disso, é um disco que gerou singles e remixes para as pistas de dança, ampliando o público consumidor na área de dancefloor-jazz, que tem um público enorme na Europa e na Ásia. E a votação é mundial, não são apenas os leitores americanos que podem votar. Este ano eu também participei de discos de outros artistas, como o guitarrista Lou Volpe, o pianista inglês Chris Conway e a banda italiana Gazzara, com quem gravei uma faixa que estourou nas rádios na Europa depois de ter entrado na trilha do Big Brother italiano. Tudo isto ajuda.

WG - Quais festivais de jazz na Europa, Japão e Coréia do Sul que você participou nos últimos anos?
IK - Não foram muitos porque, embora eu tenha feito 104 shows em 2005 e 118 em 2006, prefiro tocar em teatros e clubes de jazz. Este ano diminui um pouco o ritmo, mas já devo ter feito uns 60 shows. Os shows em festivais na Europa obedecem a um tempo de apresentação limitado, geralmente não pode passar de cinqüenta minutos. Em Northsea e Montreux, por exemplo, são cinco ou seis atrações por noite, fora os shows em mostras paralelas. E tem algumas coisas que eu não aceito, como cantar em “noite brasileira” porque não tenho nada a ver com axé ou pagode. Não vou à Europa para cantar em festival dentro do metrô parisiense nem em um palquinho em Montreux na beira da piscina. Já tenho um prestígio que me permite lotar teatros, inclusive na França e na Suíça, onde fiz dezesseis shows no ano passado com o Peter Scharli Trio. Em julho cantei no Funchal Jazz Festival, em Portugal, na mesma noite do grupo San Francisco Jazz Collective, um time de all-stars formado pelo Joe Lovano, Dave Douglas, Stefon Harris, que é barra-pesadíssima. E o público foi ao delírio, tivemos críticas maravilhosas de todos os correspondentes europeus que estavam presentes. Mas eram apenas duas atrações por noite, sem limitação de tempo e com um som maravilhoso. Também já fiz várias vezes o Camden Town Jazz Festival, em Londres. Na última ida à Coréia, foram três semanas de trabalho, com um grande show ao ar livre no principal festival de jazz, para 4 mil pessoas nos jardins do Museu de Seul, além de três especiais de televisão. Nem sempre é possível levar a banda brasileira, mas tenho grupos ensaiados na Europa e no Japão. Cada dia gosto mais também de cantar com orquestras sinfônicas, o que não é possível em festivais.

WG - O que você destaca no seu cd "Autumn em New York", que foi muito bem recebido pela crítica internacional?
IK - Adoro aquele disco. Foi meu primeiro projeto straight-ahead, somente com trio de piano acústico e um repertório de standards. Gravamos tudo em dois dias, ao vivo em estúdio, tudo valendo de primeira, inclusive a voz. O pianista Jurgen Friedrich trouxe alguns esboços de arranjos, mas a maior parte foi improvisada. Cada faixa é dedicada a um ídolo meu: Chet Baker (She Was Too Good To Me), Miles Davis (I Fall in Love Too Easily”) e a faixa-título “Autumn in New York”, uma música que eu aprendi a amar ouvindo a gravação da Ella Fitzgerald.

WG - Fale um pouco sobre seu último cd "Brazilian Butterfly" e se ele será lançado no Brasil.
IK - Não há plano de ter este disco prensado no Brasil, mas isso não faz mais diferença. Pela internet, qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode comprar ou fazer um download legal ou pirata. Estou muito orgulhosa deste disco, e principalmente de ter conseguido criar uma marca Ithamara Koorax que independe de estilo, de instrumentação, de qualquer coisa. O crítico que assinou o review do Brazilian Butterfly na DownBeat, o Fred Bouchard, que é um historiador e professor no Berklee College, começa o texto dizendo que eu sou “deliciosamente imprevisível”. Eu não faço um disco igual a outro, todos são diferentes. Odeio ficar me repetindo, não acho a menor graça em cantar sempre do mesmo jeito. O bacana é que quem gosta da minha voz, e da minha maneira de cantar, vai sempre aos shows e compra os discos, sem se preocupar com o repertório ou com a estética. Quem me odeia, vai me odiar sempre. Quem gosta, curte esta imprevisibilidade. Eu gosto que as pessoas tomem um susto quando ouvem um disco novo. Num projeto eu gravo standards e temas de Dave Brubeck, no seguinte eu gravo Dorival Caymmi e Milton Nascimento, junto com Herbie Hancock. Mas sempre tem a tal “marca Ithamara Koorax”, que alguns acham ruim, outros gostam, mas o importante é que ela existe e vem mantendo a minha carreira em ascensão há dezessete anos.

WG - Sua apresentação no Ipatinga Jazz Live será a primeira em território mineiro. Como se sente a respeito desse fato e o que os espectadores podem esperar de seu repertório?
IK - Finalmente irei quebrar este encanto, estou muito feliz com o convite da Valéria Altoé. Espero que seja o primeiro de muitos shows em Minas. Gostaria de poder ir a Belo Horizonte também, mas o pessoal lá sempre reclama do meu cachê. Não entendo isso, porque já cantei em quase todos os Estados (do Acre ao Rio Grande do Sul, de Manaus a Sergipe) e ninguém acha caro o valor do show. Enfim, vou levar para Ipatinga o mesmo show que eu levo para Londres ou para Seul. Pra mim não tem diferença cantar no Brasil ou no exterior, a minha entrega e dedicação são as mesmas. Pretendo cantar pelo menos uma música de cada um dos meus dez discos. Mas tenho 200 músicas ensaiadas com este grupo e só decido o repertório na hora do show, ou no último ensaio. O tecladista é o José Roberto Bertrami, líder do Azymuth e que gravou com Sarah Vaughan e Elis Regina. Então é um privilégio atuar com ele há 17 anos, assim como é uma honra tocar com o baixista Jorge Pescara e o baterista Haroldo Jobim. Já temos uma interação quase telepática e sempre nos divertimos muito. Desta vez terei ainda o Dino Rangel, um guitarrista fantástico que tocou comigo em 2002 na época do sexteto que também tinha o Marco Antonio Monteiro na harpa e o Dom Um Romão na percussão.

WG - Tem planos para um próximo cd? E como está sua agenda para os próximos shows?
IK - Felizmente a agenda já tem shows marcados até maio de 2008. Acabei de chegar da Europa especialmente para o show de Ipatinga e já terei que voltar na próxima semana porque uma música minha, "O Passarinho", gravada com a banda Gazzara, entrou na trilha sonora da versão italiana do Big Brother e estourou nas rádios e nas pistas de dança, com vários remixes. Em outubro faço a minha turnê asiática anual, incluindo Japão, Coréia, China, Hong Kong e Taiwan. Meu próximo disco, gravado na Suiça em outubro de 2006, está pronto e será lançado no final do ano. Claro que eu ainda tenho muitos sonhos, entre eles cantar em Israel e na Polônia. Mas posso dizer que já me sinto plenamente realizada. Caso eu decidisse me "aposentar" precocemente, me aposentaria feliz demais! Toquei e gravei com meus maiores ídolos: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Ron Carter, Larry Coryell, John McLaughlin, Dom Um Romão, Dave Brubeck, Raul de Souza, Gonzalo Rubalcaba, Mario Castro-Neves, João Palma. Não existe prêmio maior do que este!

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