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Valsa Brasileira, segundo Nelson Ayres

“Qual é a principal característica da música brasileira?”, pergunta o maestro, compositor e pianista Nelson Ayres. “A resposta de todos com certeza é o ritmo. E quando se fala em ritmo, a primeira coisa que lembramos é o samba, seguido de perto pelo choro, baião, maracatu, frevo... E a valsa, onde fica? Numa prateleira empoeirada da memória, arquivada como coisa do passado, uma curiosidade?”

25/11/2007 - Nelson Ayres

Dizem que nossa música popular urbana é fruto do acasalamento da polca européia com o lundu e outros ritmos trazidos pelos escravos africanos. Pois a valsa já dominava a cena musical brasileira muito antes da chegada da polca. O primeiro registro escrito a respeito de valsas compostas no Brasil vem de Sigismund Newkomm, músico austríaco que viveu no Rio de Janeiro. Em novembro de 1816 seu diário menciona seis valsas compostas por nada mais nada menos do que Sua Alteza Real, o príncipe Dom Pedro de Alcântara, antes de se tornar o nosso D. Pedro I. A valsa, com o aval da corte, se espalhava pelas casas das melhores famílias. E o sucesso da valsa em meados do século XIX sem dúvida se deve ao fato de permitir que os pares se tocassem, dançando enlaçados – uma enorme ousadia para a época.

Na virada para o século XX, as valsas deixam de ser apenas música de dança, instrumentais, e recebem letras para serem também cantadas. A valsa então se confunde com a modinha, e consolida-se como forma preferida da música romântica. E sua hegemonia dura até a década de 1940, quando surge o samba canção. Mas se o samba canção é original na sua forma rítmica, herdou diretamente da valsa seus contornos melódicos e o romantismo das letras.

Desde Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, a valsa tem presença importante nos “regionais” de choro e no repertório pianístico nacional. Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Noel Rosa, Garoto, Dilermando Reis, todos foram apaixonados pela valsa. Os maiores compositores eruditos brasileiros sucumbiram à sua tentação, de Carlos Gomes a Villa Lobos.

A valsa aparece nas formas mais inesperadas: valsa carnavalesca (Nós Queremos uma Valsa, de Nássara e Frasão), valsa sertaneja (Saudades do Matão, de Jorge Galati e Raul Torres), valsa cômica (Romance de uma Caveira, de Alvarenga e Ranchinho), valsa comemorativa (Fim de Ano, de Francisco Alves: “Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo...”), valsa de homenagem a cidades (Tardes em Lindóia, de Zequinha de Abreu), e assim por diante.

Mas a valsa aparece mesmo quando o compositor quer evocar o mais romântico sentimento brasileiro. E então surgem obras primas como Lábios que Beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo), Rosa (Pixinguinha e Otávio de Souza), Deusa da Minha Rua (Newton Teixeira e Jorge Farah), Branca (Zequinha de Abreu), Eu Sonhei que Estavas Tão Linda (Lamartine Babo e Francisco Mattoso), Valsa de Eurídice (letra e música de Vinícius de Moraes), Eu te Amo (Tom Jobim e Chico Buarque), Luíza (Tom Jobim), Beatriz e Valsa Brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque).

Quando falamos em valsa, é essa vertente romântica que nos vem à memória. Mas o ritmo ternário, tão peculiar à valsa, está presente de muitas outras formas na nossa música folclórica e popular. As rancheiras, guarânias e xamamés que tanto caracterizam a música tradicional do sul e centro-oeste do Brasil são parentes muito próximos da valsa. Parentes um pouco mais animados e buliçosos, mas que não deixam de falar ao nosso coração.

PS: Pois é, para repensar essa história musical que seis músicos de grande talento – Ayres (piano), Roberta Sá (voz), Toninho Ferragutti (acordeon), Chico Pinheiro (violão), Alberto Luccas (contrabaixo) e Ricardo Mosca (bateria) – apresentam o espetáculo Valsas Brasileiras entre 29 de novembro e 2 de dezembro, de quinta a domingo, no Teatro FECAP (Av. Liberdade, 532, tel. 3272-2277 - www.fecap.br)

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