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Eumir Deodato e Spok Frevo Orquestra

Dois belos lançamentos instrumentais são indispensáveis a quem curte o jazz brasileiro: "Eumir Deodato Trio – ao vivo no Rio" de Eumir Deodato e "Passo de Anjo" da Spok Frevo Orquestra. Quem conta um pouco dessa história, com maestria, é o jornalista Ailton Magioli.

Eumir Deodato (foto: Dario Zalis)

04/02/2008 - Ailton Magioli, Estado de Minas, 27/01 e 03/02/2008.

Entre a Bossa e o Clube (Ailton Magioli, Estado de Minas, 27/01/08)

Mesmo de longe - ele está radicado nos Estados Unidos há quatro décadas -, Eumir Deodato imagina que possa ser problemático comemorar o cinqüentenário da bossa nova. "Vai aparecer muita gente querendo soprar as velinhas", justifica o bossa-novista de primeira hora, que também teve a oportunidade de testemunhar e participar do nascimento do Clube da Esquina. Ausência sentida no combalido mercado fonográfico brasileiro, o tecladista, arranjador e compositor carioca juntou-se ao baixista Marcelo Mariano e ao baterista Renato "Massa" Calmon para gravar Eumir Deodato Trio: Ao vivo. no Rio, que está lançando nos formatos cd (esgotado, segundo o site da Biscoito Fino) e dvd.

Como eu morava no Rio durante a infância da bossa nova e estava sempre mais ou menos perto do pessoal; tive a rara oportunidade de ver como tudo se desenvolveu e como cada compositor ou músico tinha seu próprio estilo de divulgar seu material. A gente chamava este processo às vezes de 'caitituagem.... recorda Deodato. Quanto ao Clube da Esquina, ele garante, foi uma rara oportunidade participar com alguns arranjos do disco inaugural do movimento. de 1972, embora depois disso ele tenha de ter voltado para Nova York, onde já morava. "Mas os arranjos foram gravados por amigos, que fizeram um trabalho formidável", elogia.

Como sempre esteve em contato com o meio musical do Brasil, Deodato não crê que tenha podido desenvolver uma visão totalmente independente da progressão da música brasileira. "É quase como futebol. No fim a gente acaba sempre torcendo pelo time favorito. Ou pelo time que jogou melhor", garante o arranjador. Segundo Deodato, para ele é importante gravar no Brasil, especialmente com músicos da categoria de Marcelo e Renato. O primeiro é filho dos amigos César Camargo Mariano e Marisa Gata Mansa.

"Os shows serviram também para reunir colegas de muitos anos, com quem nunca tenho a oportunidade de estar em contato. A minha alegria de poder vê-Ios foi imensa e só isso já valeu pelo esforço, além das tantas cortesias dos companheiros, que me cobriram de confete como se eu fosse o rei Morno", comemora o arranjador, que gravou o novo álbum na Sala Cecília Meireles, do Rio, em abril do ano passado. De repertório centrado em composições próprias e clássicos da bossa nova, o disco é uma homenagem de Deodato a Tom Jobim, com quem trabalhou por 15 anos, em variados projetos. Samba de uma nota só, Dindi, Wave e Sabiá ganharam novas leituras.

Autor do arranjo original de Sabiá, que ganhou, sob vaias, o Festival Internacional da Canção (FIC), de 1968, Deodato rearranjou a mesma pérola para a gravação antológica de Frank Sinatra. Qualquer semelhança da criação dele para Sabiá com a de César Camargo Mariano, gravada por Elis Regina, não será mera coincidência. Afinal, Deodato foi o grande mestre de César, a quem incentivou em início de carreira. Baden Powell e Vinicius d'e Moraes (Berimbau) e George Gershwin (Rhapsody in blue) também estão no disco, além de Richard Strauss, de quem adaptou "Assim falou Zaratustra" para a trilha do filme 2001 - Uma odisséia no espaço, dirigido por Stanley Kubrick. Whistle brump, Whirlwinds e Skyscrapers são algumas de lavra própria.

Na opinião de Deodato, se a regravação não fosse adotada como tática de divulgação, muitas obras de valor artístico incalculável jamais poderiam ser apreciadas na atualidade. "Acho que acervo musical não deve ser visto como biblioteca, aonde você vai procurar os livros só quando necessita de referências ou de lê-Ios. A música de antigamente, na maior parte das vezes, soa como se tivesse sido feita há alguns dias, pois ela na verdade não tem data", considera o arranjador, que vê com bons olhos a possibilidade de seus discos internacionais vir a ser lançados no Brasil.

Sem Sombrinha Colorida (Ailton Magioli, Estado de Minas, 03/02/08)

O frevo é uma constante na vida de Inaldo Cavalcanti Albuquerque, de 37 anos, cuja "mania" de balançar as orelhas na infância, mexendo com os músculos do rosto, acabou lhe rendendo o apelido em homenagem ao personagem alienigena da série Jornada nas estrelas. Líder da Spok Frevo Orquestra, o saxofonista pernambucano conheceu e passou a conviver com mestres do gênero desde que trocou o interior pela capital de Pernambuco, ainda na infância. "Na verdade, não inventamos essa história de improviso no frevo. O fato do grupo ter freqüentado festivais de jazz ajudou. Neles, a gente chegava, tocava e todo mundo gostava, por ser uma música quente, desconhecida", reconhece maestro Spok, que prefere ser identificado como diretor musical e arranjador do grupo, além de instrumentista.

"Antes, a orquestra tocava frevo como ele era executado na rua, da forma que o compositor escrevia, não tinha brecha para improviso", recorda Spok. O músico admite que a iniciativa faz sucesso devido ao novo formato que o grupo deu para o gênero. "Até então, não tínhamos liberdade para improvisar e solar, caracteristicas muito apreciadas nos festivais de jazz". Segundo o maestro, talvez a Spok Frevo até sofra críticas de alguns puristas. "O que eu acho também normal", pontua. "A orquestra, na verdade, faz o frevo cru, como ele é. São 17 pernambucanos no palco, que nasceram ouvindo esta música e que não têm como não executá-Ia com propriedade, porque cresceram ouvindo o ritmo", defende-se, salientando q\,le uma coisa que a orquestra não quer perder é a alma. "O fato de o frevo ser um clássico e ter arranjos voltados para o improviso não vai atrapalhar em nada", garante.

"Alguns músicos são bastante influenciados - uns mais, outros menos - pela escola norte-americana. E isto é uma coisa normal, já que os americanos conseguiram sistematizar a sua música de forma que facilitou : o acesso a ela. Sem contar que é uma música maravilhosa", afirma Spok. "Hoje, se o músico americano quiser entender como solar um blues ou um jazz, ele tem tudo sistematizado em mais de 100 mil livros. Já se o cara quer entender como tocar um frevo, ele não vai encontrar um livro sequer", lamenta. "Talvez no caso do frevo, os músicos se contentassem em achar que ele fosse uma música de época".

O diferencial da sonoridade da orquestra, Spok acredita, está na forma de escrever os arranjos. "Eles são feitos intencional e especificamente com o propósito de o músico improvisar. São arranjos pensados com este objetivo. A música é tocada e, quando repete, todo mundo improvisa. O nosso disco é totalmente assim". Spokcita a Banda Mantiqueira, de São Paulo, como exemplo de formação que trabalha a música brasileira no mesmo estilo que eles. "A Mantiqueira, inclusive, nos influenciou muito", diz. "Eles tocam clássicos da música popular brasileira com arranjos completamente voltados para a intenção da música instrumental". Spok revela que todo tipo de música que privilegia naipe de metais influencia o grupo. Inclusive a cubana. "O frevo de rua é instrumental.

Mas ele é feito para divertir as pessoas na rua. Eu falo sempre que ele é um atorcoadjuvante, um coadjuvante dos foliões, um coadjuvante até do passista, que é o dançarino do frevo. Já no nosso caso, por se tratar de músicos, a gente sempre sonhou que o frevo de rua, por ser tão maravilhoso, poderia atuar como ator principal. A gente pega a música, leva para o palco e a transforma em protagonista. Tanto que no nosso DVD não tem colorido, não tem sombrinha, não tem passista, não tem folia. Está todo mundo sentado para ouvir aquela música com a qual estavam acostumados a dançar nos dias de camaval", vibra o saxofonista.

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