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Com a palavra, Roberto Muggiati
Entrevistas
O Clube de Jazz tem o enorme honra de entrevistar Roberto Muggiati, um dos mais conceituados escritores de jazz em nosso país. Roberto lançou durante o Festival Tudo é Jazz 2008, o seu mais novo livro “Improvisando Soluções: o Jazz como Exemplo de alcançar o Sucesso”, nada melhor que o autor comente e divulgue a sua mais nova obra.
07/05/2009 - Wilson Garzon
Wilson Garzon - Como foram seus primeiros contatos com o jazz?
Roberto Muggiati - Nasci numa casa em que o rádio e a vitrola ocupavam lugar de destaque e estavam quase sempre ligados. Um dia ouvi alguém dizer que Carmen Cavallaro era o maior pianista do mundo; fiquei meio intrigado, mas acreditei que Cavallaro era mesmo o maior. Até o momento em que me caiu nas mãos um disco da Capitol, selo branco, dizeres em azul, uma canção de George Gershwin, Nice Work If You Can Get It, improvisada pelo pianista Art Tatum. Se Cavallaro era um gigante da música melosa, Tatum era Deus, como o chamavam os outros jazzistas. Para mim aquilo não era apenas música, era uma abertura total de ouvidos e de cabeça. A partir daí, já naqueles primeiros lps de dez polegadas, passei por uma série de revelações: o trompete de Louis Armstrong, a clarineta e o sax soprano de Sidney Bechet, a corneta de Joe King Oliver, a clarineta de Johnny Dodds.
WG - Seu último livro, New Jazz: de volta para o futuro, focalizava o que o jazz tinha como criativo e renovador no final do século 20. Passados dez anos da sua publicação, quem você acrescentaria a esse grupo seleto de músicos?
RM - Não vejo destaques individuais no jazz dos anos 2000. O que posso dizer, no geral, é que jovens músicos continuam aparecendo, com um nível técnico cada vez mais apurado e com idéias que remetem praticamente a todos os estilos que os antecederam – dos sons mais primitivos de Nova Orleans aos gritos de vanguarda mais recentes. Mas não vai surgir um gênio a cada década, como acontecia nos anos de ouro em que o jazz estava em permanente revolução: um Lester Young nos anos 30, um Parker ou Gillespie nos 1940, um Miles ou um Coltrane nos anos 1960, um Keith Jarrett nos anos 1970. Isso não ocorre apenas com o jazz, mas com todas as outras artes: o cinema não nos dá um Fellini, um Antonioni, um Godard ou um Truffaut a cada década. A novidade que ocorreu no jazz nos últimos anos foi a extraordinária propagação que fez dele uma espécie de língua franca da música por todo o mundo, com festivais proliferando da Índia ao Japão, das Américas à Austrália, com novos jazzistas surgindo — não só no tradicional celeiro afro-americano, mas da Argentina ao Cazaquistão, da Rússia à Índia, do Japão a Israel, enfim, por toda parte neste mundo, vasto mundo.
WG - Como e quando surgiu a idéia de seu novo livro Improvisando Soluções?
RM - Em fevereiro de 2006, fui convidado para dar um curso sobre Cem anos de jazz no Espaço Cultural Santander, em Porto Alegre. Foram três palestras de três horas cada, com todas as 75 vagas preenchidas, por gente interessada, homens e mulheres dos 18 aos 80 anos de idade, que absorveram tudo o que eu tinha a dizer e, principalmente a tocar. A receptividade que senti naquelas pessoas em relação ao jazz levou-me à idéia de escrever este livro, para mostrar que o jazz não é apenas um estilo musical, mas uma forma de encarar a música. E, mais do que isso, uma forma de encarar o mundo, capaz de oferecer a cada indivíduo não só soluções de sobrevivência, mas caminhos para aproveitar ao máximo todo o potencial de prazer e de liberdade que a vida nos reserva.
WG - Suponho que você primeiro tenha selecionado as histórias dos jazzmen e depois, as agrupado em segmentos temáticos (Aprendendo a liderar, Rompendo barreiras, etc...). Foi difícil fazer essa montagem?
RM - As histórias já estavam na minha cabeça e foram se acumulando desde que comecei a me interessar por jazz. Ou seja, são mais de cinco décadas de relatos acumulados sobre estes artistas notáveis que escreveram a fascinante história do jazz. Se existe um modelo que me inspirou, posso citar o livro de Nat Shapiro e Nat Hentoff Hear Me Talkin' to Ya / The story of jazz by the men who made it, publicado em 1955 e reeditado em 1966. Os autores ouviram praticamente todos os principais músicos, desde os primeiros tempos do jazz até a explosão da vanguarda — que estavam vivos até a época da publicação da obra— oferecendo uma visão panorâmica e viva da atividade jazzística. É uma pena que não tenha sido feito um trabalho análogo no Brasil, na década de 1950, quando os principais artífices da mpb ainda estavam vivos.
WG - Pelo visto, Improvisando Soluções é um livro aberto. Ele poderá receber mais histórias e temas numa outra edição?
RM - Sim. A concepção do livro comporta outras histórias de outros músicos relacionados aos temas escolhidos (Abraçando o acaso, Superando adversidades, Rompendo barreiras, etc...), como à criação de novos temas. O jazz é uma das artes mais ricas em histórias humanas que conhecemos.
WG - Você acredita que o livro tenha desdobramentos na área de gestão, como palestras e cursos?
RM - É muito provável. A competitividade feroz nesta área, os chamados executivos vêm recorrendo cada vez mais a idéias e técnicas exóticas e heterodoxas para atingir seu objetivo primordial: a obtenção de resultados. O jazz – neste aspecto – pode ser uma ferramenta não só eficiente para alcançarem soluções, além de prazerosa, unindo o útil ao agradável.
WG - Uma última pergunta: De que forma você foi salvo pelo jazz?
RM - Quando troquei Curitiba por Paris, minha cabeça estava cheia daquele amor romântico-existencialista dos filmes em preto-e-branco da nouvelle vague. Envolvi-me com uma baiana desarraigada, alguns anos mais velha que eu, que tinha um caso complicado com um francês muito rico e me usou como peça no tabuleiro amoroso para provocar ciúmes no amante. Atirar-me nas águas frias do Sena foi o plano final que se formou na minha cabeça; depois de dois dias bebendo vinho barato e remoendo a perda da minha baiana, tomei a direção do rio. Ao sair do hotel, parei de repente. Ouvi um som que se projetava da janela fracamente iluminada de um prédio na vizinhança.
Lento e suave, um saxofone tenor tocava Round About Midnight, de Thelonious Monk, a mais bonita melodia do jazz. Fiquei petrificado na rua de paralelepípedos, escutando aquele saxofone solitário que se insinuava no silêncio da noite parisiense. Aos poucos, com a música se perdendo à distância, tomei o rumo oposto e caminhei para as luzes do boulevard Saint-Germain, onde fui repensar a minha vida sentado num restaurante de calçada diante de uma travessa de ostras frescas e de uma taça de vinho branco gelado. O francês é sábio: não há chagrin d’amour que resista ao instinto do bon goûter. O projeto de suicídio foi adiado — com relativo sucesso — até hoje, 46 anos depois. A propósito, o anjo salvador foi o saxofonista Barney Wilen, que morava por ali e havia tocado até com Miles Davis.
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