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São Paulo-Montreux Jazz Festival 1978

Nessa temporada de festivais internacionais de jazz, nada melhor que recordar como ocorreu em São Paulo, o primeiro grande festival, feito em parceria com o de Montreux. Nele desfilaram gênios do jazz como John Mc Laughlin, Chick Corea, Larry Coryell, Gismonti, Hermeto e Victor Assis Brasil, entre tantos outros.

John McLaughlin, Hermeto, Egberto Gismonti, Coryell & Catherine, Chick Corea e Tony Smith

24/10/2008 - Artigos e Fotos extraídos da Revista POP Nº 73, novembro de 1978.


Primeiro Festival de Jazz de São Paulo

Data: de 11 a 18 de setembro de 1978
Local: Palácio das Convenções do Anhembi
Platéia: mais de 60.000 pessoas

Artistas
John McLaughlin, Tony Smith, Larry Coryell & Philip Catherine, Dizzy Gillespie, Taj Mahal, Patrick Moraz, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Chick Corea, Joel Farrel, Stan Getz, Al Jarreau, Peter Tosh, Milton Nascimento, Nivaldo Ornellas, Benny Carter, Jazz at the Philarmonic, Raul de Souza, Djalma Correa, George Duke, Etta James, Ray Brown, Zimbo Trio, Luiz Eça, Helio Delmiro, Márcio Montarroyos, Wagner Tiso, Victor Assis Brasil, entre outros.


Saudável Salada de Sons do Presente e do Futuro (Ezequiel Neves)

O simples fato de ter levado ao Palácio das Convenções do Anhembi uma platéia superior a 60.000 pessoas, durante sete dias e oito noites, consagra triunfalmente a realização do Primeiro Festival Internacional de Jazz de São Paulo. E o melhor: o fato de pelo menos metade dessa platéia ser composta de jovens que antes nunca haviam travado contato com o idioma de Louis Armstrong dignifica ainda mais a ótima idéia da Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia. que transformou São Paulo, do dia 11 ao dia 18 de setembro, em capital mundial do jazz.

Lógico que um evento monumental como esse iria gerar muitas controvérsias. E as discussões partiram, principalmente, de puristas e retrógrados que insistem ainda em rotular o que é e o que não é jazz. O que não deixa de ser um papo muito do furado: durante mais de seis décadas, o jazz tem se firmado justamente por ser uma linguagem musical aberta a todas as influências. E os instrumentistas que integram suas trincheiras sempre souberam absorver e transcender todas as experiências do presente. Tendo por base a mais sadia improvisação, o jazz, acústico ou elétrico, provou mais uma vez ser o idioma musical popular sem as fronteiras que limitam repressivamente o passado, presente e futuro.

Quem foi ao Anhembi se esbaldou com a diversidade fosforescente de estilos e correntes. Elas conviveram sem nenhum conflito, mostrando de forma didática um vibrante painel que cobre quase cinqüenta anos de jazz. As big bands (espécie de som discotheque dos anos 30) estiveram representadas da forma mais descabelada possível. Se a Jazz Band da Universidade do Texas mostrou apenas um xerox pomposo e amador de standards jazzísticos, Paulo Moura e José Menezes fizeram a platéia mergulhar na maior farra. O primeiro, tocando e regendo a Rio Jazz Orquestra, mostrou que o tempero brasileiro só enriquece e apimenta o jazz tradicional. E o segundo, à frente da eufórica Banda de Frevo do Recife, provou que esse ritmo explode o rótulo "folclore": jazz é também alegria.

A exibição do grupo Jazz at the Philarmonic foi, principalmente, bem emocionante. Se somássemos as idades de seus componentes (os lendários Jimmy Rowles, Harry Edison, Mickey Roker, Ray Brown, Milt Jackson, Roy Eldridge e Zoot Jims) teríamos quase 400 anos de genialidade a serviço do som. E o que se ouviu foi uma exibição clássica e cristalina de estilistas vibrantes, exemplo máximo do que aconteceu de melhor com o jazz dos anos 50. E o mesmo pode ser dito do show do saxofonista Benny Carter, que transcendeu a "música de boate" feita pelo grupo de Nelson Ayres. Pertencendo à mesma geração desses medalhões, o sempre jovem Dizzy Gillespie, além de soprar seu trumpete entortado, também se esbaldou alegremente nas Percussões, inventando sons repletos de atualidade.

Mas foi o setor do jazz vocal que motivou as mais caducas discussões. A incendiária Etta James, por exemplo, quase foi condenada à morte. Isso porque o seu jazz está pousado nos gospels profanos e na fusão do rhythm and blues com o rock. Etta, mastodôntica e maravilhosa, pulverizou a platéia com sua garganta furiosa a ponto de eclipsar a exibição de Al Jarreau (um Johnny Mathis da pirotecnia dos scats), Taj Mahal (prejudicado pela falta da cozinha rítmica) e Milton Nascimento.

E os superstars também mandaram ver com classe e garra surpreendentes. George Duke instalou a farra no Anhembi, enquanto Chick Corea brilhou com seu "sofistifunk" e John McLaughlin estraçalhou seu arrebatador jazz-rock, faiscante e interplanetário. Mas em matéria de técnica e emoção, os violonistas Larry Coryell e Philip Catherine foram estrelas máximas, expandindo brilhantemente influências como as de Django Reinhart, Charlie Christian e Wes Montgomery. A grande virtude desse triunfal "Primeiro Festival", foi que não houve disputa ou confronto entre brasileiros e estrangeiros. Houve, isto sim, uma sadia troca de energia e vocabulário musicais em que o jazz saiu sempre e sempre vitorioso. A prova disso foi dada pelo prodigioso "Bruxo do Som", Hermeto Paschoal - autêntica síntese da maratona musical acontecida no Anhembi. Deliciosamente antropofágico, liquidificando todas as informações sonoras atuais, Hermeto partiu do mais descabelado free até a música nordestina, provando que os autênticos inventores vocais são aqueles que batalham para a criação da música do futuro.

McLaughlin: O "Deus" é um cara simples (Almir Nahas)

John McLaughlin Antes que ele chegasse a São Paulo, muito se falava sobre John McLaughlin, o "deus" da guitarra. Esperava-se um superstar, cheio de manias e lances de estrelismo. Quando ele desceu as escadas do Hotel Eldorado Higienópolis e, vestido com discreta elegância, sentou-se à mesa, ao lado da piscina, para conceder sua entrevista à imprensa, a expectativa desvaneceu-se. Nada de estrelismo, nada de superstar - "deus" é um cara simples, que ouve atentamente cada pergunta, pensa bastante antes de responder, expõe com muita calma suas dúvidas. Enfim, John McLaughlin mede muito bem tudo o que diz. E da mesma forma, mede muito bem tudo o que faz.

Sereno, ele explica que procura se manter, acima de tudo, numa atitude profissional. Um profissionalisrno que cultiva desde o começo de sua carreira, ainda em Londres, quando distribuía cartões de apresentação aos músicos com quem tocava: "No cartão, constavam meu nome e minha profissão: "guitarrista elétrico". Um dos líderes do chamado jazz-rock, pioneiro na fusão de formas musicais orientais com ocidentais, McLaughlin desvia cuidadosamente o assunto quando se pede para que ele fale das crenças religiosas orientais, que têm reconhecida influência em sua música: "Meu Deus é uma coisa muito simples, que eu levaria horas para explicar. Terei o maior prazer em fazé-lo, mas quando estivermos falando sobre Ele..."

E o papo volta ao ponto de partida: a música. McLaughlin conta que estudou piano desde a infância, mas um ouvido estava sempre grudado na guitarra do irmão mais velho. Ao mesmo tempo, deixava-se influenciar pelos melhores músicos de blues: "Muddy Waters e Big Bill Broqnzy eram os meus preferidos. Até que ouvi Django Reinhardt, que me impressionou pela imaginação que usava ao tocar guitarra e pela integração que tinha com o violinista". Foi certamente por isso que McLaughlin incluiu violino em todas as bandas que formou até agora. Sua ligação mais segura com o jazz deu-se quando conheceu Miles Davis, a quem acompanhou em muitos shows e gravações. Convidado por Miles a juntar-se à sua banda, McLaughlin recusou. Preferiu desenvolver seu próprio trabalho, que inclui a legendária Mahavishnu Orchestra: "Foi a partir daí que meu interior foi crescendo. E minhas manifestações exteriores também".

Chick Corea: O Pianista Espiritual (Valdir Zwetsch)

Um dia antes da entrevista, ele tinha tocado com Hermeto no Anhembi. E ainda estava vivendo o impacto dessa experiência. Talvez por isso mesmo, Chick Corea passou a manhã inteira percorrendo lojas de São Paulo, à cata de instrumentos de percussão brasileiros. Quando chegou, depois de mandar servir suco de laranja aos jornalistas, foi logo falando de Hermeto: "É fácil tocar com ele. Nós já tínhamos tocado juntos em Nova Iorque, trabalhando com Miles Davis - portanto, viemos da mesma fonte. Acho inclusive que Hermeto é o Miles Davis do Brasil. É ótimo brincar com ele nos instrumentos. Ele é "apenas' um gênio!".

E Chick, o que é? "Um espírito. As pessoas não são corpos, não são mentes, mas espíritos." Por isso, de acordo com a lógica de Corea, elas não têm nacionalidade. Ele mesmo é americano, descendente de italianos e gravou um LP chamado My Spanish Heart (Meu Coração Espanhol): "A técnica e o estilo podem ser coisas mecânicas. Mas o feeling, o jeito de você sentir a música, isso é algo espiritual, sem fronteiras. Não é necessário ser brasileiro para tocar samba. mas é preciso sentir o espírito do samba para tocá-lo bem". É por isso que Chick Corea procura fazer sua música dentro da perspectiva de uma "cultura planetária". Como ele mesmo diz: "Nós vivemos num mundo meio louco, em que os países são muito diferentes uns dos outros. E só há uma coisa que une isso tudo: a arte. Quem não sabe que as pessoas amam ouvir música no mundo inteiro?".

Então, para concluir, surge a perspectiva de uma "música coletiva" que viria completar o quadro de sua visão espiritual e planetária da arte. Ou seja: a atividade criativa não seria privilégio dos artistas, mas de todas as pessoas. Como exemplo do que ele imagina que possa ser esse tipo de trabalho, Chick Corea cita os casos de dois outros cobrões do jazz norte-americano, Sun Ra e Roland Kirk: eles, em seus concertos, dão instrumentos para a platéia tocar. E é nesse momento, então, quando fica divagando sobre a possibilidade de levar em frente seus projetos, que Chick Corea se entusiasma, relembra mais uma vez seu "desafio" do dia anterior com Hermeto e proclama: "Ora, o próprio carnaval de vocês é uma demonstração disso. As pessoas todas nas ruas, tirando sons de qualquer coisa que faça barulho - isso é uma bela maneira de fazer música coletiva!" E encerra o papo dizendo que voltará para ver o carnaval "in loco", é claro!
(Valdir Zwetsch)

Coryell & Catherine: Uma Dupla Perfeita (Okky de Souza)

Larry Coryell & Philip Catherine Quem conhece o LP Twin House, primeiro disco da dupla Larry Coryell/Philip Catherine, sabe que poucas vezes o mundo do jazz assistiu a um "casamento" artístico tão perfeito. E, se o dito popular "os opostos se atraem" também é válido para os casamentos artísticos, eis aí a explicação para o brilhante trabalho que esses dois garotões guitarristas vêm desenvolvendo nos últimos tempos. Larry Coryell é texano mas sempre morou em Nova Iorque. Philip Catherine é inglês, de família e educação belgas. Larry é um representante típico do jazz urbano da east coast dos EUA. Philip faz o modelo jazz de vanguarda europeu, ultimamente com grande influência dos experimentalistas alemães. Larry é observador, atento e faz o gênero superstar. Philip é contemplativo, bon vivant e faz o gênero diplomata.

Do encontro dessas duas personagens antagônicas, no festival de Montreux de 1975, surgiu uma das duplas mais vigorosas do jazz atual. Tão grande foi o sucesso de Twin House - e tamanha a satisfação que ele trouxe a Coryell e Catherine - que a dupla logo tratou de continuar o trabalho através de dois novos LPs. O primeiro chama-se Splendid, é gravado em estúdio e representa uma continuação natural do trabalho iniciado em Twin House. O "segundo novo LP" da dupla foi gravado ao vivo na Alemanha, num concerto já considerado "clássico" pelos fãs da dupla. Segundo declarações de Larry Coryell, foi de longe a melhor apresentação que ambos já fizeram, e ela por sorte foi gravada na íntegra.

Nos bastidores do Festival de Jazz de São Paulo, Coryell explicou aos repórteres os motivos do sucesso de seu casamento artístico: "Eu e Philip entendemos a música de maneira completamente diferente um do outro. Nossas visões e interpretações são sempre opostas. Por isso mesmo, acho, estamos sempre ensinando alguma coisa um ao outro. O Philip colabora com toda aquela complicação cerebral do jazz europeu, e eu mostro a ele como é o blues das grandes cidades americanas. Assim, depois de brigar muito, sempre armados de violões e guitarras, acabamos criando boa música. E o público, que não é tolo nem nada, está compreendendo nosso trabalho. De minha parte, confesso que nem o Eleventh House nem o grupo de Miles Davis me trouxeram tanta satisfação pessoal e profissional quanto esses três LPs com Philip Catherine. Se foi amor à primeira vista? Bem, prefiro dizer que foi uma paíxão fulminante ao primeiro acorde... "

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