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O pandeiro e o jazz de Scott Feiner

Scott Feiner é um músico inquieto e criativo que encontrou seu espaço interligando o jazz com a riqueza rítmica do instrumental brasileiro. Como resultado, já lançou dois cds e muitos trabalhos ainda virão nessa trilha por ele criada.

20/08/2009 - Wilson Garzon

Wilson Garzon - Conte um pouco sobre sua formação musical (instrumentos, cursos, influências, gigs/shows)
Scott Feiner - Quando tinha 10 anos de idade queria aprender tocar bateria, mas minha mãe não deixava porque nós morávamos num apartamento e lá, não havia espaço suficiente. Naquela época, eu era louco por rock & roll e ficava batendo nas panelas na cozinha. Quando tinha treze anos, decidi que queria tocar guitarra (ainda por causa de rock), e dessa vez, consegui convencer minha mãe. Primeiro, comecei com aulas particulares; depois, já com 15 anos, entrei numa escola de artes em Manhattan, onde conheci muita gente talentosa. Era um lugar onde se estudava música, canto, dança, artes visuais, teatro, etc.. Lá, toquei guitarra em grupos de jazz e big band e baixo acústico na orquestra da escola. Depois, já na faculdade, cursei "Jazz Studies / Guitar" na Hartt School of Music em Connecticut.

O diretor do departamento de jazz era Jackie McLean, um saxofonista lendário, discípulo do Charlie Parker. Além do Bird, ele aprendeu muito quando tocou com gênios, como Bud Powell, Thelonious Monk, Sonny Rollins, Miles Davis etc.. Então, imagina a qualidade de informação que ele tinha para passar para a gente! Foi demais escutar as suas histórias. Nessa época, tive a sorte de tocar junto com McLean várias vezes, em jam sessions privadas na faculdade. Em 1990, depois de me formar, voltei para Nova York e comecei a entrar na cena de jazz. Era uma época em que o jazz estava “bem quente” em Nova York. Eu fazia uma gig duas vezes por semana num lugar chamado "Augie's", que agora se chama "Smoke”. Todo mundo passava por lá e o jazz era de altíssimo nível nos sete dias da semana. Toquei com muitas feras naquela época: Brad Melhdau, Larry Goldings, Seamus Blake, Mark Turner, Joshua Redman, Uri Caine, Sam Yahel, Billy Drummond, Chris Potter, Joel Frahm e muitos outros. Nessa época, gravei dois cds: "Under the Influence" e "Feiner's Keepers".

WG - Como se deu a opção pelo pandeiro? O aprendizado foi difícil?
SF - Em 1995, parei de tocar guitarra. Passei quatro anos não tocando nada, apenas escutando muita música brasileira. Ela virou uma paixão para mim. Foi somente em 1999, quando fiz minha primeira viagem no Brasil, que conheci o pandeiro: amor à primeira vista! Quando voltei para Nova York, tentei aprender a tocá-lo. Realmente, foi “muito difícil” esse aprendizado. Havia algumas pessoas que tocavam pandeiro em Nova York, mas não é a mesma coisa que aprender o pandeiro no seu lugar de origem: Rio de Janeiro! Então, só fui realmente aprender a técnica do pandeiro quando fui morar no Rio, a partir de 2001.

WG - A gravação de "Pandeiro Jazz", seu primeiro cd, foi gravado nos Estados Unidos e lançado pela Delira Música. Como foi esse processo?
SF - Em 2004, estava sempre dando canjas na Lapa, tocando samba e choro. Mas, começava a sentir falta da improvisação jazzística de Nova York. Numa viagem que fiz para lá, participei de uma gig num lugar em Greenwich Village, com dois amigos meus: o violonista Freddie Bryant e o saxofonista Joel Frahm. Gravei essa gig num minidisc e voltei pro Brasil, achando que tinha uma possibilidade de fazer um som diferente no jazz, usando o pandeiro no lugar da bateria. Eu estava com dúvidas, mas várias pessoas que escutaram essa gravação me estimularam para que gravasse um disco. Quando voltei para Nova York em 2005 gravei "Pandeiro Jazz" com Joel Frahm, Freddie Bryant e Joe Martin (contrabaixo). Recebi uma oferta de lançamento do cd por um selo de jazz muito conhecido na Europa, mas não gostei da proposta. Então, optei em lançá-lo aqui no Brasil, através do selo Delira Música.

WG - A repercussão em termos de divulgação e vendas atendeu às suas expectativas?
SF - Sim, fiquei satisfeito. Mas, a gente sempre quer sempre mais, não é? Na verdade, tudo ocorreu de uma forma bem natural, sem planejar muita coisa. Primeiro, gravei o cd para ver como ficaria, sem fazer nenhum show antes. Depois, como o resultado ficou legal, procurei um selo para lançá-lo. Quando comecei a fazer shows e a receber críticas boas sobre o disco, sabia que tinha criado um projeto com muito potencial. Durante o ano do lançamento do "Pandeiro Jazz", eu me apresentei em clubes e festivais importantes no Brasil, nos EUA e na Europa. Consegui excelentes resultados, apesar de estar sem assessor de imprensa e sem produtor.

WG - Dois anos depois você lança "Dois Mundos", agora pelo selo Biscoito Fino. Qual é o conceito desse cd e o que ele se diferencia do primeiro?
SF - A grande diferença entre os dois é que "Dois Mundos" foi gravado no Brasil com músicos brasileiros: Jessé Sadoc, Marcelo Martins, David Feldman e Alberto Continentino. Outra diferença foi a entrada do piano no lugar de violão, que estava presente no "Pandeiro Jazz". Como já tinha feito vários shows com este quinteto, eu já tinha um "feeling" muito bom desse grupo. Pessoalmente, acho que cresci muito como pandeirista e como bandleader entre os dois cds, pois tive a oportunidade de fazer vários shows. Eu gosto dos dois discos, mas acho que em "Dois Mundos" estou tocando com mais dinâmica, bem mais maduro.

WG - E como está a sua carreira a nível internacional, principalmente nos Estados Unidos e Europa?
SF - No final de 2008, um produtor italiano começou a me representar na Europa. Ele trabalha com muita gente conhecida, como Wayne Shorter, Brad Melhdau, The Yellowjackets, Mike Stern, MyCoy Tyner, etc.. Ele achou meu trabalho original e queria abrir um mercado para mim na Europa. Eu já tinha tocado por lá em 2007, no “Pori Jazz Festival” na Finlândia, mas não era uma turnê. O problema é que este produtor começou a trabalhar para mim na mesma hora que estourou a crise econômica na Europa. Então, até agora, ele não conseguiu montar uma turnê. Vamos ver o que vai acontecer em 2010. Nos EUA, tento tocar por lá uma ou duas vezes por ano; pelo menos em Nova York, onde toco normalmente no Smoke, Smalls ou Jazz Standard. Este ano, fiz uma turnê no México, em duo com o violonista Freddie Bryant.

WG - Quais são seus próximos projetos (cd, dvds, festivais)?
SF - O terceiro cd de “Pandeiro Jazz” já foi gravado com a mesma banda do primeiro. Só faltam as fases de mixagem e masterização e decidir como será lançado, com ou sem gravadora. Recentemente, tenho feito uns shows aqui no Rio com formato de trio (pandeiro, violão/guitarra e piano/teclado) e estou gostando muito. Tenho vontade de fazer mais shows com essa formação e de repente, gravar um cd também. Gostaria muito de tocar em mais lugares no Brasil. Até agora eu fiz shows no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia, ainda faltam tantos lugares! E claro, também gostaria de viajar mais fora do Brasil.

WG - Como você avalia a internet em relação ao seu trabalho musical e ao futuro da música como um todo?
SF - Eu sou bem ligado na Internet. Uso bastante para divulgar meu trabalho. Nos anos que eu não estava tocando música, trabalhava em duas empresas de web design. Essas experiências me ajudaram a aproveitar mais essas ferramentas. Acho fantástico sites como MySpace e YouTube ajudarem tanto na divulgação de um projeto. Cheguei a tocar em cidades onde conheci pessoas que sabiam tudo sobre a minha música! Isso é muito, muito legal. Você chega no local do show e antes de tocar alguém fala para você: "É um prazer te conhecer. Eu sou muito fã seu e já vi todos seus vídeos no YouTube". Bom demais!

Sobre o futuro da música, essa pergunta é muito difícil! Pelo lado positivo, a Internet esta ajudando as pessoas a conhecerem muita mais músicas e artistas. E por isso, tem muita gente tocando, cantando e compondo bem. É impressionante! Mas, do lado negativo, acho que a gente está perdendo o que a gente tinha na era pré-Internet, pré-iPod, etc.. De realmente conhecer uma obra musical, um disco inteiro, não só uma coleção de faixas. Quando eu era mais novo, freqüentava a Tower Records em Manhattan e lá, passava horas vendo os lps (e depois cds). Cada compra era um acontecimento. Agora, você vai na casa de um amigo e copia um HD de 80GB de mp3's sem saber o que está lá dentro. Bem, esse assunto dá para muita conversa e seria necessário mais uma entrevista....

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