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O jazz contemporâneo de Ricardo Silveira
Entrevistas
Com exclusividade para o Clube de Jazz, Ricardo Silveira, um dos expoentes da guitarra jazzística brasileira, nos conta sobre seus tempos de Berklee e New York, sua carreira instrumental no Brasil e seus projetos.
01/09/2009 - Wilson Garzon
Wilson Garzon - Como se deu o seu encontro com o jazz? Quais foram suas maiores influências?
Ricardo Silveira - Comecei a tocar violão e guitarra com os amigos, informalmente, em alguns festivais de colégio. Nessa época, gostava de rock, rock progressivo, ouvia MPB e também gostava de canções. Interessei-me especialmente pela guitarra e violão; estudei um pouco de violão clássico e resolvi que iria estudar música. Fiz vestibular para a Escola Nacional de Música (UFRJ), mas na época não havia a cadeira de violão e muito menos de guitarra. Então, comprei um violino e comecei a estudar harmonia tradicional, mas não fiquei muito motivado. Eu não sabia bem o que queria, mas vi que não estava pronto para o ambiente erudito naquele momento.
Ouvi dizer que, quem conhecesse bem a harmonia popular estudada através do jazz estaria muito bem preparado para tocar e compreender os mais diversos estilos. Então comecei a pesquisar e ouvir discos de jazz. Acho que o primeiro que comprei foi do Dave Brubeck, aquele que tem "Take Five"; do Miles Davis foi o “Kind of Blue” e discos dos guitarristas Kenny Burrell, Larry Coryell, John McLaughlin e George Benson; Weather Report, Baden Powell e João Gilberto também faziam parte desse momento.
WG - Conte um pouco sobre a importância de Berklee e New York em sua afirmação como músico no começo dos anos 80.
RS - Fui a um show do saxofonista Vitor Assis Brasil, que foi ótimo. Também foi a primeira vez que vi o trompetista Márcio Montarroyos tocar e fiquei muito impressionado. Aí soube que eles tinham estudado na Berklee, e que lá se podia estudar harmonia aplicada à música popular, além de arranjos e o estudo formal de música. Conheci o violonista Marcos Lerena, que tinha acabado de voltar de Berklee: ele me deu uns folhetos com o endereço e me sugeriu que fizesse um curso de verão, com duração de 2 meses. Eu escrevi prá Berklee, consegui me inscrever e acabei indo para lá ainda naquele ano. Na época, não era tão caro. Chegando lá, a violonista, arranjadora, compositora Célia Vaz, que estava em Berklee há mais tempo, me indicou para uma bolsa parcial. Acabei conseguindo essa bolsa, graças a Celinha e ao Mr. Robert Share, e fiquei na escola. Conheci muita gente, e até hoje tenho muitos amigos dessa época. Foi um período muito bom.
Um fato marcante para mim foi ter conhecido o trompetista Cláudio Roditi, que já estava de mudança para New York. Uns dois anos depois de minha chegada ele me indicou para o grupo do flautista Herbie Mann; aí, fui eu quem se mudou para NY. Foram 2 anos vivendo em NY, viajando pelos EUA com Herbie Mann, Cláudio Roditi e algumas vezes Naná Vasconcelos também estava presente. Na época, comecei a participar de gravações em estúdio com diversos artistas; mas, deu saudade do Brasil. Eu já tinha vindo ao Brasil uma vez, depois do primeiro ano, por dois meses. Durante esse tempo, toquei no grupo do Márcio Montarroyos durante um mês, uma vez por semana, e pude conhecer bastante gente. Estava tudo bem em NY, mas eu voltei para o Rio, talvez porque em NY grande parte dos trabalhos, começavam a surgir, por eu ser um músico brasileiro, e que podia também ler musica. Senti necessidade de trabalhar no Brasil e ir mais fundo nessa identidade. Aí, fui tocar com Elis, depois com Hermeto, Gil, Milton. Foi nessa época que o Menescal me convidou para fazer o meu primeiro disco na Polygram.
WG - Como foi que aconteceu o "High Life"? O disco teve boa repercussão no mercado?
RS - Quando gravei meu primeiro disco “Bom de Tocar”, já me apresentava em algumas casas noturnas do Rio. Quando fui convidado para participar do primeiro Free Jazz Festival, (que até recentemente era o Tim), eu estava em NY tocando com um amigo, o saxofonista Steve Slagle, e o convidei para participar do meu show. Depois, convidei Nico Assumpção (baixo), Luiz Avellar (teclados) e o Carlos Balla (bateria). Depois do Festival, tocamos no Jazzmania durante três semanas, de quarta a sábado. Quando terminou, me lembro que o Luiz Avellar sugeriu que aproveitássemos esse momento para gravar e que fizéssemos um conjunto. Eu topei; gravamos e, depois liberamos o Steve para lançar o disco nos EUA como se fosse ele e o grupo High Life, quando houve essa proposta. Tem muita gente que gosta desse disco; acho que foi importante, vendeu alguma coisa, mas não muito. Foi bom ter feito.
WG - De "Bom de tocar" a "Storyteller" foram seis discos em onze anos. Pode-se dizer que esse período corresponde a uma primeira fase em sua carreira? Que mudanças ocorreram nesse trajeto?
RS - Quando eu estava gravando o segundo disco, "Ricardo Silveira" para a WEA/Electra Musician, o Richard Seidel, na época diretor artístico da Polygram nos EUA, me convidou para a gravadora Verve, que era do grupo Polygram, para inaugurar o selo Verve/Forecast. Conheci o Seidel durante uma tour do Milton Nascimento, da qual eu fazia parte. O André Midani, presidente da WEA no Brasil na época, e o Liminha que produziu o disco comigo, liberaram e o mesmo disco foi lançado lá com o nome de "Long Distance" e foi o primeiro de quatro.
A Verve investiu em anúncios nas melhores revistas, divulgação em rádio etc... Eu fiz algumas viagens promocionais com eles, e os quatro discos que fizemos obtiveram alguma visibilidade, tocaram bastante e ainda tocam um pouco nas rádios de jazz, todos entre os "top 5" mais tocados e dois deles chegaram a #1 por 2 ou 3 semanas. Produzi, a convite do Seidel, para o mesmo selo, o disco “Moon Stone” do Toninho Horta. Depois da Verve foi a vez do disco “Story Teller” gravado a convite de Herbie Mann para seu selo Kokopelli, que também foi bem tocado nas rádios.
WG - Em 2000, depois de 5 anos você volta a gravar com "Noite Clara". Foi o início de uma nova fase em tua carreira?
RS - A diferença foi que esse disco é mais artesanal. Acho que comecei a compor um pouco diferente, porque não tinha nenhuma data pra entregar. Fui fazendo as músicas com calma e gravando com a ajuda dos amigos, sempre com o Eduardo Chermont que co-produziu comigo, gravou e mixou em estúdios caseiros no Rio de Janeiro. Eu pensei em fazer um disco que tivesse uma linha, uma mesma viagem, buscando mesmo chegar perto de uma sonoridade atemporal, que sempre pode ser atual. Era uma meta pretenciosa, mas a via como uma inspiração; hoje, quando a gente ouve um disco como “Kind of Blue”, que tem 50 anos, ainda soa muito atual. Tem coisas datadas que são legais também, mas entrei nessa quando fiz “Noite Clara”. Não sei se consegui, mas o percurso foi bacana e tenho seguido essa linha de pensamento. E “Noite Clara”, que saiu no Brasil em 2001 e nos EUA em 2003, foi indicado ao Grammy Latino em 2004 na categoria "melhor cd instrumental". Agora, recentemente, em fevereiro desse ano (2009), fiquei feliz porque o Randy Brecker ganhou o Grammy de melhor disco de” Jazz Contemporâneo” com o cd "Randy in Brasil", do qual tive o prazer de participar, junto com o Ruriá Duprat, Marco Bosco, Teco Cardoso, Sizão Machado, Robertinho Silva, Edu Ribeiro, André Mehmari e Paulo Calazans.
WG - A partir de 2006, você começa a realizar um programa semanal "Estúdio 66" no Canal Brasil. Depois de três anos no ar, o que você destacaria?
RS - Uma experiência maravilhosa. Poder tocar com todos esses músicos que admiro de estilos tão diferentes. Foram ao todo 73 programas. Em média por ano, eram 10 dias de gravação; então, às vezes gravávamos 3 programas por dia, sem ensaios, com raríssimas exceções, e procurando sempre a espontaneidade.
WG - Como você avalia a atual presença da internet quanto à difusão musical e aos direitos autorais?
RS - Olha, não sei bem como vai ser. A mudança ainda está em curso, mas sei que achar uma loja de discos na rua ou em shopping hoje, é quase impossível. A Modern Sound é um oásis. Não existem mais nos EUA e Europa, a Tower Records, a Virgin etc... Tem as livrarias, a FNAC, mas é diferente. A venda de discos não é mais o que era e quem tem público para grandes shows, vende produtos como camisetas, discos, etc... E tem diversas experiências na internet, as mais variadas. Toquei e produzi duas músicas para o disco do Sandeep Chowta, músico multi instrumentista indiano, compositor de trilhas para Bollywood, e isso através do MySpace. Ele conhecia meus discos dos anos 80, e fez o convite. Numa das musicas "Red drops of love" tem as participações do Dori Caymmi (vocalise) e do Dave Grusin (piano), além do Jurim Moreira (bateria) e do Jorge Helder (baixo), esses nas duas.
Gravamos tudo no Brasil, exceto o piano do Dave. Íamos fazer pela internet, mas coincidiu que nós dois fomos a Los Angeles na mesma semana. Quando gravamos, o Sandeep estava presente no estúdio através do Skype. Ou seja, a internet fez a ponte Mumbai-Rio-Los Angeles. A questão dos direitos autorais é que não sei como vai ser, como lidar com a pirataria etc...mas a execução em rádio ainda está igual, se tocar, rola...
WG - Quais são seus próximos projetos? Já existe um novo cd a ser lançado?
RS - Estou com um disco pronto em processo de feitura da capa etc... que vai ser lançado em outubro nos EUA. Chama-se "Até Amanhã" e contem releituras de músicas que fiz nesses últimos 25 anos, com arranjos de sopros, a maioria de Vittor Santos, mas eu, Marcelo Martins e Jessé Sadoc também fizemos alguns. Rômulo Gomes tocou baixo e André Tandeta bateria.
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