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Lady Day All-Star Band
Colunas
Em matéria especial para o Clube de Jazz, o jornalista Bruno Vitorino nos relata o que para ele foi aquele 19 de setembro em Ouro Preto: não só um espetáculo emocionante, mas também rico pelas presenças dos músicos e cantoras que homenagearam Billie Holiday. A concepção do espetáculo do "Tributo à Billie Holiday", a escolha dos músicos e co-direção musical foi de Maria Alice Martins.
Madeleine Peyroux, Madeleine e a chuva, Mart’Nália e Ron Carter, Marcus Strickland, Ingrid Jensen & Anat Cohen e Buck Pizzarelli. (foto: Tatiana Araújo)
09/10/2009 - Bruno Vitorino
Até hoje, nenhum estudioso no mundo foi capaz de explicar os laços que florescem entre o intérprete e o compositor quando da execução de uma música. Como são constituídos os vínculos do instrumentista com um tema que de origem não é seu, só pode ser subentendido pela doação deste que toca à música que executa. Ao comentar a lendária interpretação do pianista Glenn Gould das “Goldberg Variations” de J. S. Bach, o maestro Leonard Bernstein dizia que parecia ouvir o próprio compositor tocando haja vista a verve das releituras. Mas, o que dizer quando essa relação tão instintiva se dá de intérprete para intérprete?
Billie Holliday talvez tenha sido a cantora que mais soube extrair das canções seu conteúdo emotivo e dramático. Virou de ponta-cabeça a tradição vocal da música popular estadunidense com seu jeito “blues” de delinear as melodias, seu timbre envolvente e suas densas performaces. Lady Day, imersa em seu irredutível temperamento introspectivo, despia-se completamente de toda e qualquer artificialidade para se revelar integralmente diante de todos (músicos e audiência) num dos mais puros êxtases artísticos da História. Imortalizou-se como uma das figuras mais importantes da arte no século XX, e, cinquenta anos após sua morte, continua a irradiar seu brilho infinito.
Com o intuito de celebrar Billie, o arranjador Oded Lev-Ari teve a grande idéia de reunir um time dos melhores músicos que pode encontrar para reinterpretar as músicas consagradas na voz da cantora da Filadélfia. Dessa forma, montou um grupo All-Star que contava com os lendários Ron Carter (contrabaixo), Buck Pizzarelli (guitarra) e Mulgrew Miller (piano), além dos excelentes Antonio Sanchez (bateria), Ingrid Jensen (trompete), Marcus Strickland (sax-tenor) e Anat Cohen (clarinete). Para protagonista, Oded não titubeou um segundo sequer e convidou aquela cujo timbre se assemelha bastante ao da diva: Madeleine Peyroux. O resultado desse encontro pôde ser conferido pelo público brasileiro em concerto realizado no Largo do Rosário em Ouro Preto/MG na noite de 19 de setembro.
Chovia. Numa fria noite na bela cidade histórica, esparsas gotas d’água caiam com um vigor que chegava a doer na pele. Trovões ribombavam no céu como se reclamassem a atenção do público que insistia em permanecer lá aguardando... Todos pareciam absortos. Era a apoteose do festival Tudo é Jazz que prestava também sua homenagem a Lady e tanto público como produção estavam irredutivelmente ansiosos. A imagem do palco, impecavelmente montado, parecia um pouco desoladora por ainda estar vazio.
Mas, eis que chega o momento. O incômodo frio dá lugar ao aconchegante calor, a ansiedade se transforma em euforia e o palco vira o espaço onde a música cumpre seu propósito: despertar no indivíduo não apenas descargas de adrenalina, mas também conduzi-lo a um processo de encontro consigo mesmo no etéreo.
On The Sunny Side of the Street abriu o concerto evidenciando a coesão da orquestra proporcionada pelo alto nível individual de seus componentes. Os sopros harmonizaram com a delicadeza típica dos anos 30, a seção rítmica assegurou o balanço e Madeleine singrou soberana a melodia. Anat Cohen deixou logo claro a que veio com um improviso avassalador. Na sequência, a delicadeza de I Cover the Waterfront se esparramou pelo pátio. Peyroux mostrou todo seu domínio da voz levando a melodia para onde quis. Brincou com as divisões, atrasando e adiantando o tempo exatamente como fazia Lady Day. Ingrid, no flugelhorn, exibiu um som robusto, fruto de longos anos de estudo. Seu improviso, como se cada nota tivesse sido milimetricamente pensada, foi puro lirismo.
Entretanto, a grande surpresa da noite ficou por conta da convidada especial do projeto: a sambista Mart’Nália. Ela entrou no palco e alguém sussurrou ao lado: “o que será que ela vai fazer?” A seção rítmica começou lentamente, o condutor fez o sinal e a sambista começou. God Bless the Child... O estranhamento virou encantamento em menos de dois tempos de um compasso quaternário. De repente, era como se Mart’Nália sempre tivesse cantado jazz. O timbre grave, a voz rouca, o balanço; estava tudo lá. A presença e a desenvoltura dela eram a prova de que o samba e o blues têm muito em comum na essência: ambos cantam chorando as alegrias e sorrindo os infortúnios. O resultado não poderia ter sido diferente da ovação.
Uma breve digressão se faz necessária para comentar Ron Carter, o maior baixista do jazz vivo e certamente um dos cinco maiores do gênero. A simples presença desse músico por si só causou arrepios. Seguro, discreto, elegante, com linhas que costuravam a progressão harmônica, alternando consonância e dissonância; tensão e repouso. Seu improviso nesse standard foi de uma beleza tão estonteante que Mart’Nália beijou o contrabaixo.
A brasileira cantou ainda mais duas músicas. Nice Work If You Can Get This Job, com direito até a pandeiro, e Body and Soul. Nesta última, diga-se de passagem, o veludo vocal de Mart’Nália deu colorido fascinante à melodia. Marcus Strickland mostrou por qual motivo foi eleito artista revelação pela respeitada Downbeat em 2008. Seu solo no tenor foi furioso, oscilando entre o minimalismo e a profusão de notas, sempre com muita consciência dos caminhos escolhidos.
Muito tocante também foi Don’t Explain. Um arranjo extraordinário envolveu o espectador nas mais variadas ambiências até chegar ao tema. Madeleine Peyroux simplesmente incorporou Billie Holliday. O standard mais atrelado a Lady não poderia ter recebido tratamento mais adequado. Perfeição absoluta na execução e interpretação. Hipnótico!
A apresentação se aproximava do fim quando, juntas, Madeleine e Mart’Nália cantaram Fine and Mellow. Descontração e leveza são as palavras mais adequadas para descrever essa versão. Strickland novamente colocou tudo abaixo com seu sopro incendiário. Já Buck improvisou com toda a sabedoria alcançada ao longo de seus aproximados 60 anos de jazz. No bis, a Lady Day All-Star releu No Regrets numa tentativa de adiar o inevitável fim do concerto e prolongar a mágica que unificava a todos.
A racionalidade jamais se infiltrará em todos os lugares, nem entenderá todos os aspectos da formação do indivíduo. Os recantos que ela não frequenta, o caráter mais instintivamente humano ocupa. A música e a arte no geral tem a capacidade de preencher esses refúgios de modo a fazer com que o Homem tenha de si uma visão completa. Os que tiveram a sorte de assistir ao concerto em homenagem a uma daquelas que mais soube tocar nesses cantos obscuros, saíram plenos, tão leves que mal sentiam as íngremes e tortuosas ladeiras de Ouro Preto sob seus pés.
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