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Nenê Trio e Norah Jones
Lançamentos
Duas excelentes novidades no mercado fonográfico: o jazz brasileiro da talentoso trio comandado pelo baterista Nenê e o último trabalho da cantora Norah Jones, The Fall, com inspiração da música de Tom Waits.
01/12/2009 - Eduardo Tristão Girão, O Estado de Minas, 01/12/2009 e Marília Martins, O Globo, 26/10/2009
Com pulsação brasileira
(Eduardo Tristão Girão, O Estado de Minas, 01/12/2009)
Um dos mais competentes bateristas em atividade no país, o gaúcho Nenê tem no currículo trabalhos com grandes nomes como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Paulo Moura, Quarteto Novo, Pau Brasil, Stan Getz, Elis Regina, Edu Lobo e César Camargo Mariano. Tanta bagagem pouco adiantaria na hora de iniciar carreira solo (foi com o disco Bugre, em 1983) se não tivesse realmente talento. No recém-lançado Outono, seu 11º trabalho, ele reafirma sua capacidade como instrumentista e compositor de alto nível com 10 temas calcados em elementos do jazz tradicional e da música brasileira.
O álbum foi gravado em abril. Levou apenas três dias para que Nenê registrasse as novas músicas com o baixista paulistano Alberto Luccas e o pianista mineiro Írio Jr. – a primeira formação do Nenê Trio é de 2001 e já contava com Alberto; a atual é a mesma há um ano e meio. “Hoje o trio chegou a um ponto muito importante”, reflete o baterista, que acredita na qualidade do trabalho do grupo o suficiente para compará-lo a qualquer outra boa formação instrumental do mundo. A propósito, o trio já tem marcada para ano que vem sua primeira turnê europeia.
“Gravamos tudo ao vivo. Tem de ser assim. A música instrumental acontece na hora”, conta o baterista. Ele acrescenta, o trio não deixa de ensaiar uma vez por semana. Afinal, como dar coerência a movimentos intricados como os da introdução da faixa de abertura do novo disco, Sete fôlegos? Ou não derrapar nas oscilações de andamento de Floreando? Ainda mais tendo um pianista virtuose como Írio no trio. A propósito, todas as faixas são assinadas por Nenê, que as compôs ao piano. “O piano me dá visão diferente da música. Esse lado harmônico torna o tocar bateria mais sensitivo”, avalia.
Jazz e Brasil
“Embora tenha ouvido bastante jazz, minhas influências são bem brasileiras. Tenho um pouquinho de cada um com quem trabalhei. Junto tudo isso e apresento de maneira autoral no meu trabalho”, afirma. Algumas das músicas incluídas em Outono, como Lindolfo, Tema pro Dorin e Encrenca, o público belo-horizontino teve a oportunidade de ouvir em primeiríssima mão no show que o trio fez em abril (época em que estava gravando), no Museu de Arte da Pampulha.
Apesar de a influência do jazz tradicional estar presente no novo trabalho, Nenê tem certeza de que não é preciso se fazer refém da matriz norte-americana do gênero para conseguir gravar um bom disco. “Dá para misturar tudo o que precisamos daqui do Brasil. Temos muito mais elementos rítmicos na nossa música do que há nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo. Temos grande riqueza rítmica, harmônica e melódica”, diz. Em abril do ano que vem, o trio voltará ao estúdio para gravar mais um disco.
Norah Jones comenta seu último cd
(Marília Martins, O Globo, 26/10/2009)
Quem chega ao estúdio da EMI na Quinta Avenida, em Nova York, poderia muito bem passar por Norah Jones sem perceber. Aos 30 anos, ela parece uma estudante, magrinha, cabelos curtos pintados com mechas, calça jeans, botas pretas, camiseta de malha preta. A voz suave, muito baixa, é quase sempre acompanhada de um sorriso. E quando ela se senta ao piano, meio perdida na imensidão do instrumento, sua figura miúda parece crescer e tomar todo o ambiente. Por isto, é com uma surpresa ainda maior que Norah recebe a mídia para o lançamento de seu disco novo: ela deixou o piano de lado e compôs um disco tocando guitarra.
“Por que não?”, diverte-se ela, ao começar esta entrevista exclusiva para O Globo, “eu sei que todos pensam que eu acordo tocando piano, mas quando a gente passa muito tempo na estrada descobre que o piano pode ser um trambolho e que é muito mais fácil viajar com uma guitarra”. O resultado dessa troca é mais uma virada na carreira de Norah: as canções de “The fall”, seu disco novo, com lançamento mundial marcado para 17 de novembro, é mais urbano (e menos country), mais ritmado (menos contemplativo), mais “groovy” (cheio de ritmo e balanço), mais próxima do Tom Waits dos anos 90, do antológico “Mule variations”.
Norah, como Tom, mistura jazz, rock, folk, country, blues, soul, e até vaudeville. Norah, como Tom, assume um visual quase circense, já na imagem da capa, com boa dose de humor. Mas as semelhanças acabam aí. Norah incorpora Tom e vira seu modelo pelo avesso: no lugar da rebeldia, está uma melancolia infinita que permeia todas as letras, num disco que fala de solidão, espera, desilusão amorosa e ainda esbanja ritmo para enfrentar o outono (ou a queda, na dupla tradução do título em ingles) com uma refinada auto-ironia.
Marília Martins - Por que você escolheu esse título para o disco?
Norah Jones - Por causa dos muitos sentidos dessa palavra, fall, em ingles. Tem a ver com uma estação do ano, tem a ver com um tempo na vida, tem a ver com um sentimento predominante, tem a ver com uma mudança de ritmo, uma queda, mesmo… Esse disco tem a ver com tudo isto.
MM - Você acha que este disco foi influenciado pela música de Tom Waits?
NJ - Bem, este disco foi inspirado em “Mule variations”, que é um album de Tom Waits que eu admiro há muito tempo e por isto trabalhei com a produtora de Tom, Jaquire King, e convidei o guitarrista Marc Ribot, que tocou com Tom, pra tocar comigo. Mas não acho que o resultado seja uma imitação do estilo de Tom Waits, eu nunca soaria como ele, minha voz é muito diferente. Eu queria uma combinação entre um som mais suave e mais duro, um certo equilíbrio de forças, que é dado em certa medida pelo ritmo que o disco tem, pela presença mais forte da batida. Acho que conseguimos este equilíbro que eu sonhava.
MM - Seu pai, Ravi Shankar, que é um grande músico, já ouviu esse seu disco? Você conversa com seu pai sobre música? Ele gosta do seu trabalho? Você imagina um dia fazer uma parceria com ele?
NJ - Não, ele ainda não ouviu esse disco… Que bom que você me lembrou: tenho que mostrar logo para ele, porque as canções estão perto de serem lançadas e quero que ele ouça comigo… Claro que a gente conversa muito sobre música, mas nós dois fazemos música muito diferente… Meu pai gostava de sentar na mesa do café da manhã, batucar um ritmo na mesa e ver que eu sabia imitar aquela batida… Ele é do tipo músico antigo, sabe? Era meio engraçado, todo mundo se divertia… Tenho muito respeito e admiração pelo trabalho do meu pai e ele aprendeu a gostar da música que eu faço. A gente acompanha o trabalho um do outro. E acho que ele gosta que eu faça um trabalho diferente do dele, que eu tenha independência em relação à produção musical dele. A gente não poderia trabalhar junto porque eu não sei nada de música indiana e ele não saberia tocar Hank Williams numa cítara, o que aliás soaria meio ridículo…
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