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Natal segundo Carla Bley
Colunas
A pianista de vanguarda Carla Bley em seu cd “Carla’s Christmas Carols”, usa melodias como Jingle Bells como ponto de partida para álbum repleto de pequenas revoluções de linguagem.
13/01/2010 - João Marcos Coelho, O Estado de São Paulo, 22/12/2009
Nos EUA e na Europa, esta é a época em que grandes músicos e cantores vestem-se de Papai Noel e cometem as maiores barbaridades, coisas ridículas, para as quais não há perdão. Pois Carla Bley, hoje com 73 anos, tem neste Natal de 2009 a mesma coragem de meio século atrás, quando enfiou-se no mundo do jazz arrumando um emprego de “cigarette girl” no lendário Birdland de Nova York onde tocavam gênios como Charlie “Bird” Parker, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie e tantos outros gênios. E que escola, o Birdland.
Ela saiu de lá de caso com o pianista PaulBley. Foi figura chave do jazz experimental dos anos 60, tocando com Charlie Haden na Liberation Music Orchestra. Transformou-se numa das maiores pianistas do jazz. Casada há muitos anos com o contrabaixista Steve Swallow, comanda uma big band e adora grandes projetos orquestrais. O casal produz suas gravações para seu selo Watt, distribuído pela ECM.
Pois para este Natal ela providenciou o notável cd “Carla’s Christmas Carols” que, acreditem, leva as centenárias canções de natal a sério como matéria-prima para performances admiráveis. Não há concessão comercial. Logo Carla e Steve, que há pelo menos duas décadas deixaram de comemorar o Natal. “Hoje nos limitamos a uma garrafa de bom vinho, em casa, sem árvores natalinas nem troca de presentes”, confessou recentemente.
São doze faixas. Além das inspiradíssimas recriações de clássicos eternos como “Tannenbaum” e “Jingle Bells”, Clara dá seu pitaco com alguns excelentes temas. É o caso de “Hell’s Bells”, em que ela cita aquela melodiazinha que os fabricantes de papais noéis costumam injetar nos bonecos do bom velhinho e que nos saturam os ouvidos durante o período natalino. Mas faz dela a base para uma performance de altíssima voltagem. A contemplativa Jesus Maria, de Carla, de Natal só tem o nome. Uma melodia longa, com direito até a um belo solo da pianista. Outro detalhe inesperado: o contrabaixo elétrico de Swallow integra-se harmoniosamente com os metais do Partyka Brass Quintet. Não existem asperezas, tudo é muito redondo.
Nove faixas foram gravadas em estúdio, na França. Mas as duas últimas foram captadas ao vivo, em Berlim. Em “Holy Night”, o contrabaixo de Swallow enuncia o tema de modo convencional; mas, dos dois minutos em diante, o piano de Carla injeta um discreto swing – aí Swallow viaja num belo improviso, enquanto o piano cita de leve o tema. Os metais entram na altura dos 5 minutos, para anunciar o improviso de Carla. Tudo corre num clima bem gospel, típico do sul dos EUA. Apenas no último minuto os metais entoam majestaticamente o tema arquiconhecido. Pois é, Carla Bley e Steve Swallow não brincam em serviço mesmo. Com eles, nada é banal – nem mesmo as surradas canções natalinas.
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