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Laércio Vilar, Jazz de primeira

De volta aos palcos, Laércio Vilar está lançando o primeiro cd, "Carnaval atmosférico". Depois de longo ostracismo, o respeitado baterista Laércio Vilar grava disco instrumental e planeja fazer turnê em Minas Gerais. "É a realização do ano", comemora o músico.

14/01/2010 - Eduardo Tristão Girão, O Estado de Minas, 14/01/2010

Nada como ter amigos – e que amigos! Retirado do absoluto ostracismo por grupo de artistas da capital mineira, o baterista belo-horizontino Laércio Vilar começa 2010 com o pé direito: acaba de lançar o primeiro disco, o ótimo Carnaval atmosférico, no qual registrou nove temas (oito autorais) inspirados no free jazz com a ajuda de craques da cena instrumental da cidade. Como se não bastasse, prepara-se para divulgar o trabalho em dois shows e turnê pelo interior do estado. Ele terá sua vida contada em documentário do cineasta Tomás Amaral, que será rodado este ano.

Ao ouvir Carnaval atmosférico, gravado em março passado no Estúdio Bemol, em Belo Horizonte, parece inacreditável que Laércio, de 64 anos, estivesse há anos afastado da música, tamanho seu talento como baterista e compositor. Ele toca à vontade entre feras como o saxofonista Chico Amaral e o tecladista Enéias Xavier. Laércio mora há quase três décadas no pequeno vilarejo de Taquaraçu, próximo a Moeda, a 65 quilômetros de Belo Horizonte, onde até pouco tempo atrás havia um único telefone coletivo. Foi para lá acompanhar a mulher. Hoje tem três filhas e dois netos.

O músico ganhou experiência tocando em bailes e carnavais de rua, integrou a Banda Vera Cruz, acompanhou gente como Marilton Borges, Pacífico Mascarenhas, Célio Balona e Túlio Silva. Chamou a atenção com trabalho solo, mesmo sem ter disco para mostrar, e fez discípulos do quilate de Neném, Lincoln Cheib, Rai Medrado e André “Limão” Queiroz. Isolado, não demorou para escassearem as oportunidades de trabalho. A combinação dos excessos típicos de quem vive da noite com o afastamento gradual da bateria foi péssima. De 2003 para cá, ele passou a sofrer de artrite, do coração e de pressão alta. Para sobreviver, teve de trocar as baquetas por enxadas e marretas.

Laércio soube por acaso que a sorte havia mudado. Por coincidência, encontrou-se com Rai Medrado e Ricardo Cheib e deles recebeu a notícia de que os dois inscreveram projeto para a produção do que viria a ser Carnaval atmosférico na Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Rai, que também é baterista, tem o veterano como um dos seus primeiros professores e estava acostumado a ouvir colegas comentando que queriam gravar discos para “resgatá-lo”.

Assim foi feito. Foram chamados para as gravações, que duraram uma semana, Enéias Xavier (teclado e piano), Chico Amaral (saxofone), Paulo Márcio (trompete), Jonathans Marques (baixo) e Matheus Barbosa (violão). Rai, Lincoln e Ricardo Cheib tocaram percussão em algumas faixas. Laércio chegou ao estúdio com cinco músicas na cabeça. Outras três ele desenvolveu na hora, com a ajuda dos colegas. A última faixa, Agora, foi feita por Chico no mesmo momento. O baterista cantou suas melodias e ditou os ritmos; Enéias cuidou das harmonias e dividiu com ele a autoria dos arranjos. “É a realização do ano. Estou começando bem. Estou esperando as respostas que esse disco vai me dar”, diz Laércio.

Na tela

O pré-lançamento do álbum ocorreu em show de rua durante o festival de inverno de Ouro Preto, em julho do ano passado. Apresentação vigorosa, vista por poucos, mas documentada em vídeo por Tomás Amaral (filho do saxofonista Chico), responsável pelo projeto do documentário aprovado recentemente na Lei Estadual de Incentivo à Cultura e atualmente em fase de captação de recursos.

Em junho ou julho serão coletadas as imagens que darão origem ao DVD de cerca de 50 minutos com filme sobre a vida e a carreira de Laércio, com depoimentos e trechos de apresentações. “Meu objetivo é divulgar esse documentário internacionalmente, pois o pessoal daqui de Minas, como o Toninho Horta, tem mercado no Leste e no Norte da Europa, no Japão. Às vezes, são mais conhecidos lá do que aqui”, explica Tomás.

O cara

“Laércio é um superbaterista, muito atual, e influenciou muita gente. Não vamos tirá-lo de onde mora, mas melhorar sua carreira. Ele tem de voltar a tocar e os mais novos devem saber da importância dele. O documentário tem de registrá-lo como um ícone. Os melhores bateristas de Minas Gerais o ouviram e o idolatram. Ele é o cara”, afirma Rai Medrado.

Autor do projeto que viabilizou o disco, Rai também inscreveu turnê pelo interior de Minas na lei estadual de incentivo. A expectativa é de que o circuito de apresentações contemple cinco ou seis cidades (Belo Horizonte, Ouro Preto e São João del-Rei, entre elas) e comece em março. Antes disso, logo depois do carnaval, haverá dois shows de lançamento, provavelmente em BH e em Ouro Preto.

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